Num canto escuro de
uma esquina malcheirosa, agarrada nos tijolos de um prédio sujo, ela vomitava.
Suas pernas manchadas de bexigas roxas demonstravam a falta de cuidado que
tinha para consigo. Um homem bêbado passou perto e disse alguns gracejos
enquanto ela jogava fora sua existência, encharcada de álcool nas noites da
vida. Após o pior passar ela levantou os olhos para o céu e viu a lua olhando
para sua carcaça desalinhada. Por um breve momento pensou nos sonhos de menina
que o diabólico tempo tratou de pulverizar. Tinha perdido o juízo; a juventude
tão gostosa de ser vivida; os amigos verdadeiros; a família que ela mesma
deixara para trás. Caminhou alguns quarteirões até seu quartinho acanhado no
hotelzinho de quinta categoria. Abriu a porta e sentiu no rosto o cheiro de
mofo que dominava o cubículo. Sentou-se na cama e acendeu mais um cigarro,
talvez o trigésimo da noite. Tudo à sua volta rodava, os olhos de peixe morto,
pálpebras caídas. Após fumar, apagou o venenoso e se deitou sobre o cobertor
que ansiava por limpeza. Apagou... Mais
uma noite de trabalho encerrada, mais um dia vivido sem ter alegria no coração.
domingo, 24 de junho de 2018
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