Tive pai e mãe até o dia em que minha mãe fugiu com
o vizinho chamado Ruan,
isso quando eu tinha doze anos. O meu pai ficou com a vizinha mais por raiva e
também porque já não tinha mais nada para fazer, além de juntar os seus quatro
filhos com os sete filhos dela, o que acabou fazendo da nossa casa um albergue
dos diabos, com colchonetes até no banheiro e uma falta de tudo, até mesmo do
sempre abundante pão com bananas, que verdade seja dita, era o cardápio dos
dias de semana e também aos domingos. Mas nada disso é tão importante como o
fato da mulher gritar mais que pastor em culto de arrecadação e não dar sossego
e nomes aos filhos dela, pois meu pai sabia dar nome aos filhos; João
Paulo, André Rodrigo são nomes comuns, já os irmãos ganhos na roleta russa da
vida se chamavam Werlilaine, Wermenton, Wirton, Wurtenson, Wesllei, Wasvanesca e Wislon;
que é diabo a carregue com tanto W. O caso que ninguém mais conseguia ler ouvir
rádio ou assistir TV gato tamanho era o amontoado de gente naquele casebre de
quatro por nada, pois até o gato e os cachorros fugiram para o bairro vizinho,
pois nem eles suportaram o inferno em que estávamos todos metidos. Havia brigas
para poder comer, tomar banho no tanque; não havia chuveiro, lavar o rabo e
tudo mais era difícil. Foi o que me fez fugir de casa com treze anos para nunca
mais voltar. Na verdade foi minha sorte, pois soube que meu pai teve mais três
filhos com a louca adoradora de w, embora o Wirton tenha morrido de pneumonia dupla, pobre
diabo. O caso é que nem posso aqui do norte imaginar a dificuldade de
convivência naquele pequeno universo de barrigudos verminados e mais feios que
temporal em alto mar.
terça-feira, 27 de março de 2018
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