terça-feira, 15 de janeiro de 2019


TRINTA E DOIS

Tarde quente e de vento forte. Ruas vazias. O homem da lei entrou no saloon repleto de bandidos. Sacou da arma e foi atirando. Em pouco tempo matou todos os facínoras, trinta e dois no total. Olhou em volta, acendeu um charuto e foi saindo devagar. O jovem barman apavorado perguntou:
- Qual é seu nome delegado? E como conseguiu matar todos sem recarregar
seu revólver?
-Clint, meu nome é Clint. E isso é cinema, filho.

RENAN NÃO! por Percival Puggina. Artigo publicado em 11.01.2019

Só um profundo respeito aos leitores, à democracia e à manifestação da vontade popular expressa no silêncio da urna – seja qual urna for – impede que este artigo inicie com impropérios. Confesso: vontade não faltou. Enfim, Renan Calheiros voltou ao Senado da República e, tão logo renovou o mandato, iniciou campanha para retomar a presidência da Casa.
Reeleito senador, Renan é problema alagoano; eleito presidente do Senado passa a ser problema nacional. Sua eleição ao posto entraria em profunda contradição com o desejo de desinfecção, de saneamento básico, de separação de material orgânico que o povo brasileiro manifestou nas eleições de outubro, e arma poderosa a serviço dos piores interesses que conspiram contra o novo governo.
Não sei quem foi o criador da expressão “extrema imprensa”, mas ela é perfeita para designar o coletivo dos meios de comunicação que operam como dedos das mãos e mãos dos braços da esquerda na imprensa nacional. Dado que para ela quem não é de esquerda é de extrema direita, parece adequado designá-la pelo nome de extrema imprensa. Dê, então, uma vasculhada no que tem sido dito pela extrema imprensa a propósito das pretensões do senador Renan. Veja se qualquer desses veículos apresentou algo sobre os 14 inquéritos a que responde o cidadão aspirante ao comando da Câmara Alta. Basta-lhe virar réu em qualquer deles para que, se eleito, volte a ser um presidente do Senado excluído da linha sucessória da presidência da República.
Beira ao escandaloso o fato de que sucessivas eleições e reeleições de Renan Calheiros para exercer o mesmo posto tenham dependido do sigilo do voto de seus colegas senadores, o que aponta o caráter obscuro dessas motivações. É uma espécie de voto inconfessável. Fica chato, pega mal, votar em Renan Calheiros. Sobre tudo cai o silêncio da extrema imprensa, mais preocupada com as visões de uma criança abusada, com a promoção de um funcionário de carreira do Banco do Brasil e temas dessa magnitude institucional.
Parece óbvio que se a extrema imprensa ainda mantivesse o controle do direito de opinião, se a sociedade só ficasse sabendo o que ela escolhe divulgar e só pudesse ouvir as opiniões por ela emitidas, o resultado eleitoral nacional de outubro último teria sido bem diferente. A renovação da cena política brasileira foi possibilitada pelos smartphones e pelas redes sociais, que democratizaram o direito de opinião e deram voz ao povo.
A situação se repete. Se tudo ficar como está, com o noticiário comandado pela mídia extrema, interessada em criar todos os problemas imagináveis ao governo, são grandes as possibilidades de que o senador alagoano presida o Senado pelos próximos dois anos. Somente uma intensa mobilização, ao longo das próximas três semanas, através das redes sociais, poderá evitar a eleição de Renan, constrangendo seus pares a tomarem juízo e vergonha. #RenanNão


PAPO ENTRE PORCOS

Um suíno que rumava para o frigorífico caiu do caminhão e entrou na mata. Entrou na mata e desapareceu entre a vegetação sem olhar para trás. Logo encontrou um porco do mato.

-E aí cara? Tudo bem?
-Tudo maneiro.
-Pois fugi da morte agorinha. Tô que é só pulsação.
-Não moras por aqui?
-Não. Fui criado perto das cidades.
-Prazer, sou um porco do mato.
-Eu sou suíno, mas quase todos me chamam de porco.
-Eu também tenho apelidos.
-Diga um.
-Tateto.
-Tateto?
-Engraçado né?
-Sim, tateto é engraçado.  E tua família?
-Estão por aí comendo raízes. E a tua?
-Já foram para o papo dos humanos.
-Que coisa triste!
-Estou só no mundo...
-Irei falar com meu pai para você entrar pra família.
-Vai fazer mesmo isso?
-Irei fazer sim, de coração. Vamos lá?
-Vamos!
-Então agora você é um porco do mato. Certo?
-Certo!



O PROFESSOR DOUTOR NO INFERNO

Chegou ao inferno o renomado Professor Doutor Hércules do Amaral. Homem inteligente e culto, apreciador de artes diversas e também político de péssimos costumes. Preenchidos os papeis foi Satanás Ferreira mostrar-lhe seus aposentos. Ampla sala com estofados em couro, ar-condicionado, banheiro amplo, cozinha em mármore, frigobar e outras regalias como TV de quarenta e duas polegadas. Surpreso perguntou para o vermelhão:
-Está certo? Assim é o inferno?
Satanás Ferreira deixou escapar um risinho...
-Assim é meu caro. Mas não se iluda com a primeira impressão, com todas estas belezas. Conto-te agora que televisão ficará ligada vinte e quatro horas por dia eternamente e o programa único será o Big Brother Brasil.


O ANTRO

Tardinha de sexta-feira. Sala no subsolo. Ambiente enfumaçado, conversas em voz baixa, sujeitos mal-encarados e outros nem tanto, todos bafejando álcool em grande estilo. Políticos, assaltantes, traficantes, proxenetas, jogadores e algumas prostitutas. Só cidadãos de primeira linha. Ali se reunia a catrefa para planejar novos golpes e maldades embalados por todos os tipos de drogas. Assim do nada tlac tlac tlac tlac...tlac tlac tlac...tlac tlac..tlac. Um pequeno cubo mágico rolou pela escada. Então, TRANSFORMERS JUSTICEIRO!!
Não sobrou nem mesmo o barman.


OBSERVANDO
O canteiro central
Dois bancos com os pés no barro sob árvore robusta
O negro asfalto riscado de faixas brancas
Na sarjeta um copo descartável
Uma carteira de cigarros em frangalhos
O poste de metal sem pintura que suspende o semáforo
O amarelo
O verde
O vermelho
Uma moça fofa atravessa a faixa com uma pasta verde nas mãos
Atenta ao perigo dos doidos e distraídos
Tantas coisas a se observar
Para sentir o todo vivo ou estático que compõe a paisagem da vida urbana.


NÃO SE CRESCE SEM DOR

O tempo nos marca a ferro
E descobrimos que princípios são inegociáveis.
Então renego toda tutela,
Antes morrer que ficar dependente
Do estado ou de um ser físico.
Sei que nada consistente é feito sem sacrifício,
Pois a experiência da vida nos ensina
Que não se faz omelete sem quebrar ovos.