quarta-feira, 21 de março de 2018

DEUS MILHO


O milharal se perdia no horizonte. Milho, deus milho adorado, o amarelo milho da verdade infernal, divino para tontos de todos os calibres. Os jovens adoradores saíram fazendo sacrifícios infames para o deus Milho, que queria sangue para crescer. Sacrifícios foram feitos, a colheita foi boa e os seguidores saíram impunes. Mas o deus Milho não teve tanta sorte como os demais. Foi pego por uma máquina e virou fubá. Pereceu como polenta na mesa de um italiano de muito apetite, rodeado por queijos e salames diversos.

BRENO


Solitário, Breno não gosta mesmo de companhia. Vive de aluguéis. Com a cara rotineiramente amarrada parece estar sofrendo cólica renal. Amigos, colegas, familiares, namoradas, nada. Ele só e só ele. Na verdade Breno sempre que pode se move apenas na escuridão , isso para não ter nem sombra.

CAÇANDO PATOS


Ano 2550 DC. Romualdo e Peter saíram no domingo para caçar patos. Os bichinhos faceiros se deliciavam na grande lagoa quando os caçadores chegaram. Os bichos alçaram voo e eles meterem bala. Aí foi que aconteceu um fato novo que mudou a história de todas as caçadas de patos. Chegaram por detrás deles dois patos de terno e gravata que se apresentaram como advogados. Os eles largavam as armas ou seriam denunciados e presos. E ainda ameaçaram: E saibam vocês, o juiz do condado também é um pato. Acho que dá perpétua! Foi assim que acabaram os domingos de caçadas de patos.

UM SANTO REMÉDIO


Madrugada e o cão Tupi não sossegava, não parava de latir. Vizinhos reclamavam em bando. Após esbravejamentos e xingamentos inúteis seu dono levou para ele o último exemplar da Playdog. Foi um santo remédio.

IMOBILIZADO


Pedro estava em frente ao computador quando sua mãe o chamou para ajudá-la a guardar mantimentos. Ele fez menção de levantar-se, mais não conseguiu nenhum movimento. Estava petrificado em frente ao computador, totalmente sem movimentos e apavorado. Suava frio. Os olhos fixos na tela, a mão direita sobre o mouse; apenas podia ouvir os berros da progenitora que não cessavam. Tentou piscar para espantar um mosquito que estava na sua pálpebra, procurou cuspir, nada. Sentiu uma leva coceira no ouvido, fez um esforço sobre-humano para coçá-lo, mas não obteve resultado. Sua mãe já cansada de chamá-lo subiu para puxar suas orelhas. Ao ver que ele não respondia e que permanecia estático feito um poste, ficou em pânico. Deu-lhe uns tabefes e nada, nenhuma reação. Chamou pelos vizinhos, mas ninguém apareceu. Então como última cartada ela sacou a tomada, desligando o micro. Arfando muito pelo susto, amarelado, ele lentamente voltou ao normal, para alívio de sua mãe, que depois do sermão voltou aos seus afazeres. Porém ele, passado o susto, fez aquilo que dele se esperava; religou o micro e voltou aos jogos.

ABLUTOFOBIA


Rinaldo não tinha medo de uma arma apontada para si. Mas caso lhe apresentassem um chuveiro, sabonete e toalha de banho ele caía em prantos. Lavava-se com paninhos molhados, isso quando a catinga já estava afetando os vizinhos. Sofria o pobre de ablutofobia, doença que o isolava das pessoas. Porém mesmo com toda carniça uma boa alma descobriu serventia para Rinaldo. Foi contratado por Adamastor como segurança na sua boate. Deu certo, nem arma usava. Quando acontecia uma confusão bastava Rinaldo erguer os braços que todos caiam ao chão ou fugiam porta afora. Um gambá perto dele era café pequeno. Mas perdeu o emprego quando se tratou e passou a andar limpo.

PARAÍSO


O menino Célio estava morrendo de uma doença rara, tinha ele apenas sete anos e não havia mais esperança de melhora. Num sonho apareceu um anjo e disse que ficasse tranquilo que após morrer iria morar no paraíso verde-amarelo onde tudo era maravilhoso. No dia 15 de novembro de 1915 Célio se foi. Chegando ao tal paraíso verde-amarelo a primeira coisa que disse foi- “ Anjo mentiroso .Paraíso? Isso aqui fede!”