segunda-feira, 30 de outubro de 2017

MATILDE

Mesa de bar. A fumaça dos cigarros deixa o ambiente sombrio. Baralho, tagarelas em ação, a língua se solta. Envolvido pela embriaguez o verme abre sua caixa de segredos para companheiros de aguardente. Conta à história da esposa Matilde que há anos foi embora, mas que na verdade não foi, tranco na cabeça, jaz enterrada num lugar ermo. Todos riem, acham brincadeira, mas um deles leva a sério. No dia seguinte ele conta o segredo para um amigo, que também tem um amigo policial e antes da seis da tarde o crápula já estava encarcerado contando tudo. Oito anos se passaram do fato, os timbós verdejantes balançam ao vento, máquinas em ação, cavouca aqui e ali, então quase desaparece o timbozal, tantos buracos na paisagem. Uma multidão acompanha e aguarda. No segundo dia surgem ossos, um vestido vermelho e uma sandália de couro cru. Matilde ali posta, Matilde morta, Matilde agora ossos e pó finalmente terá sua justiça. 

REALIDADE

Humanos mergulhados na empáfia?
Mais dia menos dia
Seremos todos ossos e pó
Salvo alguns esperançosos da criônica
Que acreditam em algo diferente
Mas a realidade do humano
É nascer
Crescer
Morrer
E mais não tem.

O SONO DO SONSO

O sono do eleitor sonso
É um sono pesado
E quase sempre quando o sonso acorda do seu sono
A vaca já foi para o brejo.

FILA DUPLA

Automóvel parado em fila dupla piscando ali fica
Tendo o motorista nos seus miolinhos que é dono da rua
E quando cobrado da safadeza por outros cidadãos
Tem ainda a petulância de ficar exasperado
Como se certo estivesse
Perto de tal jumento é melhor guardar distância
Pois além de receber algum pataço
Existe o risco de ser contaminado pela estultice do verme.

NATURAL

Mais de cem bilhões já passaram pelo planeta
Destes nenhum retornou
Então nascer
Crescer
Morrer
Tudo tão natural
Mas já na infância
Fomos acostumados pelos adultos
A ter medo do inevitável.

LOBO

Muitas vezes o mal se maquia
O lobo se torna ovelha
E através de manipulações e língua ferina
Tenta fazer da verdadeira ovelha
O ser que na verdade ele é.

MURO


“O Muro não foi uma gafe histórica. Cada socialismo requer seu próprio muro, seu próprio cárcere.” (Juan Ramón Rallo)