quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O SURTO DE PAULO

 O SURTO DE PAULO

Antigamente acordava Paulo o chilrear dos pássaros. Abria a janela  e deixava a beleza inundar seu quarto. O dia começava com alegria e beleza. Quando saía para o trabalho, tinha ainda o cantar dos plumados na sua cabeça. Agora sofre com a poluição sonora, acorda não com pássaros, mas sim com motocicletas e automóveis acelerando diante do semáforo próximo, como se quissem levantar voo. Fora os sons em alto volume de alguns motoristas surdos. Ontem pela manhã ele surtou. Enlouqueceu completamente, estava irreconhecível. Foi à rua e explodiu três automóveis com granadas compradas no Paraguai, e arrebentou dois motociclistas com um taco de aroeira. A mãe de um deles que estava na garupa, apanhou de chibata, e aos gritos de: "educa esse filho da puta, educa!" Paulo foi preso logo depois, e nos seus olhos o via-se o brilho da vingança e nos seus lábios um risinho diabólico.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

 NADA ABSOLUTO

Antes de gerados

Não estamos lá 

Tampouco cá

Navegamos no nada absoluto

Esperando pela luz da vida.

“Estou beirando os oitenta. Minhas paixões agora são os analgésicos.” (Nono Ambrósio)

 INGÊNUO

Navega nas nuvens do pensar

O ingênuo salvador do mundo de soluções simplistas

Crê ele ser possível mudar o homem apenas com boa vontade

Como também erguer fogueiras na floresta sem queimar madeira.


 OBSERVANDO

O canteiro central

Dois bancos com os pés no barro sob árvore robusta

O negro asfalto riscado de faixas brancas

Na sarjeta um copo descartável

Uma carteira de cigarros vazia

O poste de metal sem pintura que suspende o semáforo

O amarelo

O verde

O vermelho

Uma moça fofa atravessa a faixa com uma pasta verde nas mãos

Atenta ao perigo dos doidos e distraídos

Tantas coisas a se observar

Para sentir o todo vivo ou estático que compõe a paisagem do nosso lugar.



terça-feira, 29 de dezembro de 2020

AS COBRAS

 


AS COBRAS


A cobra macho Sspy entrou na casa para curtir uma sombra, e deu de cara com uma cobra de areia colorida, que cobria o vão inferior da porta. Ainda não muito experiente nas coisas mundanas de amores e agarramentos, ficou vidrado na arenosa, e não mais saiu de perto, até ser morta a pauladas pelo dono da casa, que desejava apenas enxotá-la, porém não teve outro jeito. Morreu no piso frio da despensa, com os olhinhos cheios de paixão, sabendo da pior maneira possível que toda paixão traz seus riscos.



"Não tenho nenhuma dúvida: sou muito melhor dormindo que acordado." (Climério)