sexta-feira, 24 de maio de 2019

A GAZETA DO AVESSO- Um homem careca encontrou tantos cabelos num risoto de camarão em restaurante da capital paulista que obrigou o chef a implantá-los em sua cabeça sem cobrar nada por este trabalho, digamos, artesanal.



LANCHINHO
Uma multidão se reuniu em volta do homem que sentado na calçada se alimentava. Usava maionese, ketchup e mostarda como incremento. Protegia sua camisa com um guardanapo de pano xadrez. O que teria de especial um homem fazendo seu lanche na calçada? Nada teria se ele não estivesse se alimentando de paralelepípedos.


GINA    
Gina, dezoito anos, bela e frágil, meiga e prestativa. O pai Ernesto era um cavalheiro. A mãe Andradina uma caninana. Certa amanhã Gina acordou tossindo e vomitando pétalas de rosas. A mãe não se aguentou- “Ainda vomitasse dólares ou euros. ” Gina morreu no outro dia, seu corpo exalava um maravilhoso perfume. Foi o velório mais cheiroso do mundo. Até hoje a ciência ainda não conseguiu uma explicação. Os pais de Gina ainda vivem. Ele, culto e aberto ao mundo; ela; caminhando para lá e para cá matando grama com cuspe.



PAUSA
O céu está muito azul. O vento frio que bate no meu rosto considero uma carícia. O alto lugar onde me encontro, entre pedras e grama verde, é um paraíso de paz. Nas árvores abaixo os pássaros iluminam ainda mais o dia com seus trinados. Fico de pé para melhor observar ao redor a beleza que me cerca. Mais à direita um menino cheio de energia pesca num pequeno açude. Pequenos pontos que vislumbro distantes são ovelhas no pasto. É muito bom ter esses momentos, pausa para os ouvidos, livres do estridente politicamente correto e da mesmice dos broncos.


BOAVENTURA E O PORCO STRADIVÁRIUS
Boaventura mora no sítio Aruana que fica cem quilômetros da cidade mais próxima e tinha como amigo o porco Stradivárius. O porco era especial, pois inflava como se fosse um balão e levava Boaventura montado a passear pelos verdes vales da região. Fizeram belas viagens os dois, muita beleza observaram dos ares, inclusive interagiam com bandos de pássaros.   Sem dúvida Stradivárius era especial, era. No último passeio voaram muito baixo e foram vistos por um caçador que pensou tratar-se de um disco voador e meteu bala no porquinho. Boaventura anda inconsolável pela perda do amigo, mas não desiste, agora está tentando inflar o bode Nicolau.


NÃO SE META
A ponte, o rio veloz lá embaixo, a névoa e o desejo de saltar. O homem salta, bate n’água, um barco que passava salva o suicida. O homem balança a cabeça, abastece de impropérios o pescador que o salvara, fica fora de si; queria mesmo morrer. O pescador não se faz de rogado: sacou do revólver e o matou com dois tiros. Pegou quinze anos por matar um suicida.


LUTERO

Lutero tinha quarenta anos de vida e cem de malvadezas. Lutero era um homem muito mau. Morreu de um AVC.  Na comunidade onde morava ninguém gostava da sua pessoa, nem mesmo cães e gatos. A família idem. Era pura bandidagem e maldade.  Quando morreu somente o caixão foi ao velório. O funcionário da funerária simulou cólica renal para ficar em casa. Um mendigo que passava viu o corpo jogado na porta da capela mortuária e pôs o corpo num caixão e colocou a tampa.  Até a mãe dele que estava manca e sofrendo com um bico de papagaio passou à tarde num bailão da terceira idade. Pela manhã Lutero foi ao forno empurrado pelo proprietário da funerária. A prefeitura pagou pelo enterro do traste já que a família não deu um só centavo.