quinta-feira, 23 de maio de 2019


SUJEITO FRIO
Lá dentro de sua casa hermética e quase sempre apertada é um sujeito frio e seco como todos os seus familiares. Para ir para rua precisa tomar banho, aí sim salta fora rapidamente.  Quando sai de casa muda de personalidade e se torna um feliz derretido. Seu nome: gelo.



MENTIR É PERIGOSO

Num jantar de esquerdistas uma boa mãe rezou: “Deus, abençoai este alimento conquistado com o suor do trabalho dos presentes. ” Na mesmo instante as panelas arderam e os alimentos foram reduzidos a pó.



PASSEIO DIVINO

Naquele dia Deus saiu a caminhar, na verdade um passeio pelo Brasil. Em São Paulo durante o passeio encontrou uma multidão de petistas que vagabundeavam como sempre. Perguntaram quem ele era. “Eu sou o Deus criador de todos. ”  Alguns petistas perguntaram: “O senhor Deus conhece Lula? ” Deus respondeu: “Lula está preso, babaca! ” E seguiu seu caminho voando entre as nuvens de saco torrado.


LEOCÁDIO

Salta! Pula! A multidão reunida no centro da cidade ansiosa aguardava lá embaixo pelo último ato do suicida. Finalmente ele se jogou do telhado. Os mais sensíveis fecharam os olhos antes do choque fatal. Então antes de espatifar-se no chão, Leocádio abriu suas belas asas e alçou voo para navegar sob o resplandecente azul do céu. Antes contornou e fez um rasante mostrando a língua para os abutres que pediam por sangue.



SÍLVIO

O pensamento em fogo de altas labaredas. O vento forte, o mar revolto, sentado na ponta do trapiche um Sílvio sem forças. Suas lágrimas misturadas ao sal, o frio que doía bem menos que o tridente cravado em seu coração. Sem rumo, sem foco, sem nada, esperando o tempo ficar velho. Então acobertada por uma chuva formidável, chegou navegando sobre uma onda brava uma bela sereia. Toda cheia de encanto e ternura carregou Sílvio em seus braços mar adentro, levando ele para o recanto da eterna mansidão.


DONA MEIGA


Filha de Bastião Louco e Eldorina Fumaça, Dona Meiga nasceu e viveu por mais setenta anos em Barra do Sarapião. Teve uma infância normal brincando entre algumas dezenas de cadáveres de inimigos do pai, cabeças empaladas e amigos acorrentados recebendo chibatadas. Adulta, um doce era Dona Meiga. Um pote de mel era menos doce que sua saliva.  Vivia da lavoura e nas horas de folga matava alguns conterrâneos por uns cobres ou pernas de salame. Não judiava é verdade, somente matava a tiros como manda o bom figurino. Mas era na matança muito delicada e deveras tão gentil que alguns até agradeciam por estar entrando na bala.



quarta-feira, 22 de maio de 2019


LEMBRANÇAS
Bica d’água
Água da nascente enchendo o tanque
Tampa de lata de tinta para brincar de chofer
Flores copo de leite
Cerquinha de madeira
Cama de molas
Galinhas bicando aqui e ali
Ovos apanhados no ninho
Pé de lima espinhento
Um araciticunzeiro sofrido
Pêssegos com bicho
Varinha de cerca viva para meninos marotos
Forno de barro
Pão quente
Fogão de lenha
Pinhão na chapa
Privada no fundo do quintal
Empresa do Lara
Depósito de cal
Madeira empilhada
Brincadeiras de esconde-esconde
Chuveiro de latão
Medo do escuro
Páscoa de parcos chocolates
Festa de Santo Antônio padroeiro
Natal de bola e revólver de espoleta
Vizinhos reunidos
Banhados a mão

Rãs e saracuras
Campinhos de terra
Ida ao Índio Condá com o pai
Torcedor do Rio-Grandense  e Independente
Matinê aos domingos no Cine Ideal
Django
Pecos
O Gordo e o Magro
Cavalaria americana
Picolés do Bar Estrela
Gasosa e sorvete seco no Armazém Palmeiras
Armazém do Oscar Matte na Getúlio
Os sinos da catedral bem ouvidos
Missa com padre Romualdo
Os caríssimos irmãos do Frei João
A irmã Gilda do Colégio Bom Pastor
A fila e o Hino no pátio
O Sete de setembro
O dia do boletim
O campo feito de tijolos para futebol de salão
O recreio de pão com nata e açúcar
Professoras
Marisa
Lourdes
Avani
Marina
Inezita
São tantas as lembranças da minha infância feliz
Que só faz bem recordá-las.