domingo, 31 de março de 2019


JEAN

Jean rapaz; Ele não estuda,  não trabalha, não projeta o futuro, vive apenas o presente aprisionado por pesadelos e fantasmas. Caiu no poço da desgraça faz tempo, não consegue sair. Grita ”meu pai me ajude, minha mãe me ajude! ”   Porém onde eles estão não podem mais ouvi-lo e os amigos de outrora estão na mesma situação de desespero; presos ou então mortos. Encostado numa calçada imunda, fedendo a suor reciclado no próprio corpo, entre uma crise e outra compra uma pedra.  Consegue o alívio que dura pouco, o sofrimento retorna dobrado. Assim são os seus dias de vedador. Não há luz, somente escuridão-sofreguidão.  Mas ele quer não quer continuar assim.  Fácil foi entrar nesse labirinto de perdição, difícil é encontrar a porta de saída quando a força maior do vício não deixa. Algumas mãos já passaram pela sua frente oferecendo ajuda e foram enxotadas. Uma pena; a vida de Jean está ficando sem tempo.


O INVENTOR

Carlotto era um inventor engenhoso.  Inventou a lâmpada que não acende para poupar energia; inventou o ralador que não rala; a máquina de fatiar que não fatia e o espremedor que não espreme. Também criou a famosa caixa de joias que só se abre por dentro; uma vez fechada, babau! Ontem fez a demonstração da sua última invenção: o ventilador nuclear supersônico. Funcionou. Tanto funcionou que arrancou sua cabeça e derrubou o prédio onde morava. Uma perda lastimável para a ciência nacional. E como!



O AMIGO

Loreno vivia só numa casinha num local distante de tudo. Arrumou um cão para ter companhia. Depois de algum tempo o cão morreu. Loreno então conseguiu um gato. Depois de algum tempo o gato também morreu. O homem não tinha sorte com os animais, todos morriam logo. Depois do gato teve uma ovelha; uma coruja; um jabuti; uma jaguatirica; um veado campeiro; duas codornas; um papagaio; um macaco prego; uma arara e por fim arranjou como bom amigo um homem perdido que na sua casa bateu pedindo ajuda. Não demorou um ano Loreno morreu. O amigo?  O amigo continua bem vivo. Tomou posse da casa e vive ainda por lá, já beirando os oitenta anos. Não tem bicho nenhum, só uma potranca quarenta anos mais nova.

sábado, 30 de março de 2019


“Sou um sujeito tão simples quanto as sandálias havaianas. E também não solto as tiras. ” (Mim)



ACONTECEU EM CUBA
No silêncio do cemitério ouviram-se gritos: Tirem-nos daqui! Tirem-nos daqui!
O vigia passou a procurar de onde vinham e demorou um bocado para localizar. Descobriu que era do túmulo de um feroz dirigente comunista cubano que os gritos provinham. Rapidamente tirou a tampa do caixão e para sua surpresa uma enormidade de vermes pulou fora do esquife pedindo educadamente um lugar para vomitar.


MANUEL
Manuel artesão sempre adorou fabricar brinquedos de madeira, era sua vida e alegria. Não se casou, não tinha filhos ou parentes vivos.  Homem magro e pequeno, quando morreu aos oitenta anos foi enterrado dentro de um bilboquê.



TENHA CALMA

Entrando em sua casa na maior solidão e ouvir vozes estranhas, antes de assustar-se e pensar que está ficando louco ou se a mesma está mal-assombrada, verifique se o rádio não ficou ligado.