Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser. O cansaço de todas as hipóteses. — Fernando Pessoa
quarta-feira, 20 de junho de 2018
FERNANDO PESSOA
Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser. O cansaço de todas as hipóteses. — Fernando Pessoa
ALCE
“Casei-me com uma mulher feia para não ter
incômodos. Pois não adiantou, tornei-me um alce.” (Pócrates)
SAFADAS
“Estranho as safadas esposas de corruptos mesmo achando que era muito mel para pouca abelha, nunca questionaram os seus maridos, e aí ficam apavoradas quando recebem a visita da Polícia Federal.” (Pócrates)
O CÃO E O HOMEM MAU
Janaína era uma boa mulher. Muito bela, honesta,
cuidava com zelo da pequena casa. Só tinha olhos para o marido, Rufino, o
marido, um bruto. Tinha um pequeno caminhão e fazia fretes pela cidade.
Ciumento demais seguidamente dava pancadas na boa mulher sem motivo. Ela pobre
coitada ignorava a Maria da Penha. Apanhava mais que bumbo no carnaval. Certo
dia o maldito exagerou no espancamento e a pobre mulher morreu. O bandido enterrou
o corpo no mato e espalhou que ela tinha ido embora com um rapagão do circo.
Dias depois um caçador encontrou o corpo e Rufino foi preso. Na cadeia,
curtindo um chá de grades, foi chamado à razão pelo cãozinho do carcereiro.
- Então matou a tua mulher covardemente, não é bandido? Pessoa boa que não merecia. Tu és mesmo um merda!
-Sai pra lá, animais não falam!-disse Rufino.
-E tu que és uma víbora, como é que tu falas?-retrucou o cão enquanto freneticamente mordia seus calcanhares.
PÓ
Noite. Uma rua solitária na periferia. Um gato malhado salta entre os telhados enquanto cães ladram ao vento. O excesso de lixo caiu fora das latas e escorre pelo chão de terra. Baratas passeiam fugindo dos pés dos meninos que brincam de bola na via. Mães e irmãs mais velhas chamam para dentro os garotos de pés encardidos. É hora do banho e do jantar. Crianças recolhidas, agora chegam automóveis com ocupantes que procuram nas esquinas pelos empresários do pó. A lua e as estrelas observam o movimento. Dinheiro para cá, pó para lá. Negócio feito lá e vão os loucos em busca de alucinações, enquanto os empresários da farinha perigosa contam as notas. O inferno para ambos os lados é logo ali.
NICE
Esta é a curta história de Nice, uma doce bombinha, faceira e formosa que apressadamente marcou um encontro com um pombo galã após conhecê-lo pelo facebook. Embora avisada pelos familiares dos perigos de encontros assim, não deu bola e foi. Usou seu melhor perfume e carregou na maquiagem. O local combinado para o encontro foi um casarão abandonado na Vila Dores. Chegaram ao local e foram para o sobrado. Já nas primeiras carícias o tal pombo mostrou a sua verdadeira face. Ela ficou apavorada quando o dito mostrou suas garras. Na verdade não era um pombo, mas sim um gavião disfarçado. Azar da pobre pombinha que foi literalmente comida no primeiro encontro. Restaram da Nice somente penas e sua nécessaire.
O OBSERVADOR
Final de tarde, horário de verão. Estou aqui na varanda observando o movimento até onde meus olhos alcançam. Temperatura boa de 25 graus. Como estou num lugar alto consigo ver os pedestres se digladiando por espaço na viela estreita. Seu Antonio do Armazém Ramires está na porta conversando com uma freguesa magrela, de nariz adunco, cheia de gestos e requebros. Pelo que posso ouvir está falando das intromissões da sogra no seu casamento. Um ciclista distraído se enrosca num carinho de picolé, para desespero do vendedor que esbraveja contra ele. O carinho tomba lateralmente, mas os picolés não caem. Dona Zuleika está na janela controlando Paulo, o marido galinha que bate papo com os colegas no ponto de táxi da esquina. Dona Eufrásia, costureira da rua, abre o portão para que entre Eunira, mocinha que está nos preparativos do enxoval de casamento. Os moleques Tico e Fubá muito entretidos jogando bolitas num cantinho de terra que separa os jardins de Milena, mãe de Fubá. Como é período de férias, inúmeras crianças e adolescentes gastam os chinelos pelas calçadas. Amador, o chaveiro, sentado detrás de uma mesinha desgastada assinala cartões da Megasena e sonha acordado em ficar milionário. Assim já comprou inúmeras fazendas e automóveis de luxo. Dona Cleci abre uma fresta na janela e observa as moças da vizinhança, sendo que o seu forte é a maledicência. Um branquelo careca e armado passa correndo, sendo perseguido por dois chineses que também trazem armas nas mãos. Que posso fazer? Sou apenas um canário observando o movimento da rua aqui do meu mundinho da gaiola.
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