quarta-feira, 13 de junho de 2018

O TEMPO


Menino Glauber estava descalço e de calção na sala assistindo televisão. Depois se levantou e foi até a janela para ver a vida passar. Chupou duas balas, voltou para dentro e aí percebeu que já estava com setenta anos. Pois é o tempo, o implacável tempo. Voa o precioso e quase não percebemos. Sentimos o início e o fim e quase sempre perdemos o meio.

AMANTES


Beijos linguísticos, lambeções interplanetárias, gemidos florestais e orgasmos alucinantes. Assim Berto Carvi naquela tarde sob os lençóis amava Ana Galinda, esposa do mafioso Don Trombose num apartamento no grande Hotel Imperador. Um dia de céu azul, fresco e de muita sensualidade. Não sabia o belo Berto que Genaro um dos recepcionistas estava na lista de pagamentos do chefe. Porta aberta, tiros silenciosos e um corpo enrolado nos lençóis que não muito cobriam corpos em volúpia. Ana Galinda após alguns sermões e sopapos já estava toda maquiada e pronta para novas traições, enquanto Dom Trombose dolorido passava brilhantina nos chifres.


RAINHA DELMA


Ano 1750 no reino da ignomínia. A Rainha Delma prendeu na masmorra do seu castelo a bela serva Iraci, doente de ciúmes diante da beleza da moça. Mandou a rainha servir na masmorra apenas água, nada mais que isso. Viajou por um ano e voltando de sua longa jornada fez uma visita de surpresa para sua prisioneira. Encontrou-a feliz, fofa e corada. Não acreditou no estava vendo, impossível. Mas ao ver o Rei Elmo seu marido de apenas quarenta anos, beiço caído, andando amparado por servos, pesando pouco mais de cinquenta quilos, compreendeu tudo.  Seu último ato em nome da dignidade real foi atirar-se pela janela dentro do fosso dos crocodilos.

DESESPERO


Na noite do desespero
Existe apenas a escuridão
Não há lua
Não há estrelas
Apenas existe a dor
Que alucina e que fecha todas as portas do entendimento.

FOSSE O MUNDO ACABAR


Fosse mesmo o mundo acabar
Reuniria os meus amados
E ficaríamos recordando  bons momentos passados
Entre abraços e ternos beijos
Sem desespero
Comendo delícias
E fazendo troça até a última luz das nossas vidas se apagar.


ILUMINADA


Iluminada é a mente
Que tem o horizonte infinito como alvo
Ao contrário do parvo
Que de cabeça baixa conta as pedras encontradas no caminho.


NO BOLSO


Não parece doença
Mas é das bravas
Que toma o sujeito pela mente
E o conduz gentilmente
A ser um contribuinte compulsório
Dos procuradores do tal senhor onipotente
Que ninguém vê
Que ninguém sente
Salvo o sentir no bolso mensalmente.