Mauro não era propriamente um homem a quem podemos
emblemar de bem com a vida. Casamentos desfeitos, bons empregos perdidos, duas
sociedades em que fora passado para trás. Naquele dia saíra para procurar
emprego e voltando para casa sem nenhuma novidade encontrou ela vazia. A mulher
partira levando a mobília também. Ele foi então
até o banheiro, levantou a tampa do vaso e se atirou dentro. Espremeu-se
bem e com muito esforço conseguiu puxar a cordinha da descarga. Adeus mundo
cruel!
sexta-feira, 8 de junho de 2018
PERU INÁCIO
Dezembro estava chegando e o peru Inácio não queria
morrer. Rezava que rezava para ser poupado nas festas de natal e novo ano. Já
não dormia mais, sua angústia era visível. Suas colegas galinhas tentavam
consolá-lo dizendo que a vida é mesmo assim; hoje uns e amanhã outros. O galo
médico receitou até um ansiolítico. O padre Bode João rogava-lhe que tivesse
esperança. Inácio olhava para o ceú azul e não sentia nenhuma alegria, sua
única visão era ele bem bronzeado sobre uma farta mesa, rodeado de arroz,
saladas e de pessoas embriagadas. O caso é que dezembro chegou e o bom Inácio
foi ao forno. Ficou bem moreninho como ele mesmo imaginara; sem dúvida um belo
peru. As galinhas amigas agora rezam por sua alma, orientadas pelo Bode João.
CONTANDO
Desde cedo da manhã o velho seu Zacarias sentado na
porta da igreja contava um, dois, um, dois, um, dois. Passou Antenor e
perguntou: Por que um, dois? Seu Zacarias olhou para ele e: Um, dois, três... Um,
dois, três...Um, dois, três...Aí veio Dona Cleusa e também o interpelou. E Zacarias: Um, dois, três, quatro... Um, dois, três,
quatro... Agora já são quatro pessoas que não tem o que fazer além de ficar
xeretando a vida de um velho sentado na porta da igreja.
BARRAS
Linha azul e agulha, agulha e linha, uma calça
jeans sobre a mesa. Gritos pedindo anestésicos e “socorro vão me matar!” “estão
me furando as minhas pernas!” Alguns minutos dessa ladainha chorosa tudo se
acalma. Linha e agulha voltam para seus lugares e a calça suada depois de todo
o sofrimento para fazer suas barras repousa em silêncio debruçada no cabideiro.
FÓSFOROS
Naquela minúscula caixa havia um fósforo meio
depressivo, sem cabeça. Não conversava com ninguém, abatido, triste, um inútil.
Numa fria manhã ele surtou. Riscou um irmão contra o outro até a caixa explodir
num fogo só. Não sobrou ninguém, até o esmalte da tampa do fogão ficou marcado.
Uma vez mais ficou provado que quem não tem cabeça age por impulso e queima até
mesmo os seus irmãos.
LEOCÁDIO
Salta! Pula! A multidão reunida no centro da cidade
ansiosa aguardava lá embaixo pelo último ato do suicida. Finalmente ele se
jogou do telhado. Os mais sensíveis fecharam os olhos antes do choque fatal.
Então antes de espatifar-se no chão Leocádio abriu suas belas asas e alçou voo
para navegar sob o resplandecente azul do céu. Antes contornou e fez um rasante
mostrando a língua para os abutres que pediam por sangue.
ANA ANDROPOVA E ALEXEI ROMANOV
Moscou, Rússia. Ana Andropova, 40 anos, dona de
casa, cinco casamentos, sem filhos, cinco vezes viúva, todos de morte natural.
Alexei Romanov, agricultor, um homem bom, 42 anos, se achava também um homem de
muita sorte e propôs casamento a Ana Andropova; não temia morrer cedo.
Acontecido o entendimento sentimental e financeiro entres as partes, casamento
realizado. Foram morar no campo e viveram felizes por mais de quarenta anos.
Não tiveram rebentos. Morreram de
infarto no mesmo dia e hora, sem sofrimento. Ao limparem os corpos descobriram
que os dois tinham um trevo de quatro folhas vivo e crescido no ouvido
esquerdo.
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