Num canto escuro de uma esquina malcheirosa, agarrada nos tijolos de um
prédio sujo, ela vomitava. Suas pernas manchadas de bexigas roxas demonstravam
a falta de cuidado que tinha para consigo. Um homem bêbado passou perto e disse
alguns gracejos enquanto ela jogava fora sua existência, encharcada de álcool
nas noites da vida. Após o pior passar ela levantou os olhos para o céu e viu a
lua olhando para sua carcaça desalinhada. Por um breve momento pensou nos
sonhos de menina que o diabólico tempo tratou de pulverizar. Tinha perdido o
juízo; a juventude tão gostosa de ser vivida; os amigos verdadeiros; a família
que ela mesma deixara para trás. Caminhou alguns quarteirões até seu quartinho
acanhado no hotelzinho de quinta categoria. Abriu a porta e sentiu no rosto o
cheiro de mofo que dominava o cubículo. Sentou-se na cama e acendeu mais um
cigarro, talvez o trigésimo da noite. Tudo à sua volta rodava, os olhos de
peixe morto, pálpebras caídas. Após fumar, apagou o venenoso e se deitou sobre
o cobertor que ansiava por limpeza.
Apagou... Mais uma noite de trabalho encerrada, mais um dia vivido sem ter
alegria no coração.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
LIMPEZA GERAL
Antero é um
homem de muitas posses. Além de câmeras, muros e cercas eletrificadas, dois
ferozes cães Pitbull guardavam sua casa. Guardavam. A bandidagem cada vez mais
aparelhada e abusada apareceu para roubar trazendo dois leões adultos. Os
cachorros serviram de lanche. A rapaziada fez então uma limpeza geral. Com
direito a caminhão de mudança e tudo. E por desaforo deixaram os dois leões no
canil.
A CIRURGIA
Depois da
cirurgia ele se encontra deitado na cama de ferro, imóvel sobre alvos lençóis.
De hora em hora uma enfermeira vem para ver como ele se encontra. Observa sua
pressão e sai. Na parede um quadro solitário da Santa Ceia faz companhia ao
homem que dorme sedado. Sobre o criado mudo não há nada, nem mesmo um copo ou
uma revista qualquer. O soro desce em lentas gotas e o rosto do enfermo aos
poucos ganha cor. Lá fora, entre nuvens, aparecem pedaços do azul do céu. No
canto esquerdo do quatro está largado um pequeno sofá marrom que aguarda para
acolher uma visita qualquer. Já faz quatro horas que a operação foi realizada.
O homem abre os olhos e se mexe um pouco. A enfermeira chega, ele pede: “Onde
estou?” Ela fazendo um olhar de mãe diz que ele está no Hospital Samaritano,
sofreu uma cirurgia para extirpar um pequeno tumor no cérebro e que correu tudo
bem. “Tudo bem nada” diz ele .-“Sou o encanador, vim até aqui apenas para
consertar um vazamento e acabei caindo no banheiro. E agora me acontece isso?”
CORDIAL, PERO NO MUCHO
Brasileiro
cordial
País da paz
Foi nisso que
acreditou uma pombinha imigrante
Ao vir para o
Brasil fugindo da Venezuela
Pois nem bem
chegou ao Rio de Janeiro
Recebeu uma
bala no peito
Prêmio de um
traficante
Que
comemorava mais um dia de boas vendas.
NÃO HÁ FUGA
Caio
E quando me levanto
Sinto que cresci
Pois não há crescimento
Sem dificuldade e dor
E muito se engana quem pensa em fazer voltas
Pois é sabido que podemos fugir de todos
Menos de nós mesmos.
PUZT!
Deveríamos proibir em todo o
território nacional
A conjugação do verbo roubar
Pois a sua prática contumaz nos altos
círculos
Repulsa e nos faz vomitar.
CUBA, UMA REVOLUÇÃO DECRÉPITA E RABUGENTA por Percival Puggina. Artigo publicado em 21.06.2017
Em 1959, meus pais vieram morar em Porto Alegre. Aqui estavam as universidades e os melhores colégios públicos que para elas preparavam seus alunos. No topo da lista, o Colégio Estadual Júlio de Castilhos e seus excelentes professores. Por ali passaríamos os sete irmãos, cada um ao seu tempo. Era impossível, na efervescência intelecto-hormonal e no dinamismo da política estudantil dos anos 60, ficar imune aos debates e às disputas entre as distintas e "sólidas" convicções dos adolescentes às voltas com suas espinhas. Foi nesse ambiente que ouvi, pela primeira vez, afirmações que repercutiriam através de sucessivas gerações de brasileiros: nosso país, a exemplo de outros, era subdesenvolvido por causa do imperialismo norte-americano, do capitalismo, da ganância empresarial e da remessa de lucros para o estrangeiro. Desapropriação e nacionalização compunham palavras de ordem e o fogoso Leonel Brizola se encarregava de agitar a moçada com inflamados discursos a respeito.
Para proporcionar ainda mais calor àquela lareira ideológica, Fidel Castro, montado num tanque, passara por cima dos supostos males causados pela burguesia e - dizia-se - colocava Cuba no limiar do paraíso terrestre. Derrubara uma ditadura e implantava o comunismo na ilha. Cá em Porto Alegre, nos corredores do Julinho, os mais eufóricos desfilavam entoando "Sabãozinho, sabãozinho, de burguês gordinho! Toda vil reação vai virar sabão!". A efervescência tinha, mesmo, incontidas causas hormonais.
Em meados de 2015, o New York Times publicou matéria repercutida pelo O Globo sobre as expropriações e nacionalizações promovidas pela revolução cubana em seus primeiros três anos. Menciona vários contenciosos que se prolongam desde então, envolvendo, entre outros, o governo espanhol, uma entidade representativa dos interesses dos cidadãos espanhóis, os Estados Unidos, bem como empresas e cidadãos norte-americanos e cubanos. Todos tiveram seus haveres confiscados, expropriados e, em muitos casos, surrupiados por agentes públicos. Ao todo, dois milhões de pessoas abandonaram a ilha, deixando para trás seus bens. Muitos, como a nonagenária Carmen Gómez Álvarez-Varcácel, que falou ao NYT por ocasião dessa reportagem, tiveram tomadas as joias de família que levavam no momento em que abandonavam o país. Segundo a justiça revolucionária, tudo era produto de lucro privado e merecia ser expropriado. Quem, sendo contra, escapasse ao paredón, já estava no lucro. Um estudo da Universidade de Creighton fala em perdas de US$ 6 bilhões por parte de cidadãos norte-americanos. As pretensões espanholas chegariam a US$ 20 bilhões.
No discurso da esquerda daqueles anos, e que se reproduz através das gerações, Cuba, tinha, então, o paraíso ao seu dispor. Sem necessidade de despender um centavo sequer, o Estado herdou todo o patrimônio produtivo, tecnológico e não produtivo de empresas privadas e de milhões de cidadãos. Libertou-se a ilha da dita exploração capitalista. O grande vilão ianque foi banido de seu território. Extinguira-se, de uma só vez e por completo, a remessa de lucros. A maldosa burguesia trocara os anéis pelos dedos.Tudo que o discurso exigia estava servido de modo expresso, simultâneo, no mesmo carrinho de chá.
Cuba, no entanto, mergulhou na miséria, no racionamento, na opressão da mais longa ditadura da América, na perseguição a homossexuais, na discriminação racial e na concessão a estrangeiros de direitos que, desde então, recusa ao seu povo. Por outro lado, enquanto, em nome da autonomia dos povos, brigava como Davi com bodoque soviético contra os Estados Unidos, treinava e subsidiava movimentos guerrilheiros centro e sul-americanos, e intervinha militarmente em países africanos a serviço da URSS.
O recente recuo político promovido por Trump nos entendimentos com a alta direção de Castro&Castro Cia. Ltda. leva em conta aspectos que foram desconsiderados por Obama e pelo Papa Francisco, tanto na política interna da ilha quanto nos contenciosos nascidos naqueles primeiros atos da revolução. Não posso ter certeza sobre quanto há de proteínas democráticas na corrente sanguínea de Trump animando essa decisão. Mas não tenho dúvida, porque recebo informações a respeito, que os milhões de cubanos na Flórida conhecem como ninguém a opressão política, a coletiva indigência, a generalizada escassez e a falta de alternativas que sombreia sucessivas gerações de seus parentes sob o jugo de uma revolução velha e velhaca, decrépita e rabugenta. E essa pressão política pesa muito por lá.
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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.
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