quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O QUE FAZER QUANDO O CENÁRIO POLÍTICO É DESOLADOR?

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Por Thiago Kistenmacher, publicado pelo Instituto Liberal
Impeachment de uma presidente despreparada e integrante de uma máfia política; posse de um novo presidente; depois o nome dele citado em investigações; Trump X Hillary; Bolsonaro X Jean Wyllys; novela em torno do presidente do STF. Cansa ter que defender esta ou aquela posição. Cansa ver o debate entre esquerda x direita e as confusões que emergem dessa simplificação entre os posicionamentos políticos. Por fim, cansa até mesmo ouvir falar disso tudo, mas é exatamente quando a política não está boa que temos que pensar nela.
Se a esquerda revolucionária cansa, a direita moralista também; se a direita que quer falar latim até no café da manhã está vivendo um mundo paralelo, a esquerda que quer voltar ao bolchevismo vive em outro. Isso tudo satura. O que resta é nadarmos até as pequenas, mas ainda resistentes ilhas de sensatez que ainda não foram atingidas pelos tsunamis das paixões políticas.
Certa vez disseram a Russell Kirk que a política seria a preocupação ou o passatempo dos analfabetos. Assim, Kirk teria respondido que seria exatamente por isso que não poderíamos largá-la nas mãos deles. Concordo, e é por isso que tanta gente, ainda que veja a política como um mal necessário, continua brigando para evitar que os monomaníacos paranoicos destruam o que sobrou.
Gostar de política é um tanto quanto difícil e muitas vezes ela serve para preencher vazios existenciais de sujeitos que precisam diluir sua personalidade problemática em algum rebanho, seja ele qual for.
Enfim, dado esse cenário desolador cuja trilha sonora é um montante de slogans que são inadvertidamente repetidos por todos os cantos, pergunto: o que fazer?
Acredito que o que resta é continuar lendo e estudando os clássicos da política, e agora, também acompanhando aqueles poucos sujeitos, atuais formadores de opinião, que ainda conservam o bom senso. Mas o que seria isso? Bem, nem é preciso dizer que qualquer um que creia ter a solução para o mundo no seu blog ou perfil de Facebook não deve constar entre eles.
Sorte nossa que existam uns e outros com “estômago de aço” e com credibilidade que não cansam de refutar falácias e mais falácias, sejam elas econômicas ou não.
O que nos resta é ter paciência e, apesar de ser quase impossível pensar que as coisas irão melhorar, devemos admitir que o pensamento público e mesmo dos jovens estudantes têm mudado bastante. Não costumo ser um exemplo de otimismo, mas pessimismo absoluto quando vemos o liberalismo e até certo conservadorismo – me refiro ao de boa estirpe, como diria Constantino – emergindo entre a juventude, seria contrassenso.
É claro que liberais ou conservadores não vão salvar o mundo, mas pelo menos não farão esforços para destruí-lo.
Tenhamos paciência. Enfim, em meio a tantas discussões extenuantes, para tomarmos fôlego, ainda nos é possível recorrer à arte, à boa literatura, à filosofia. É preciso equilibrar as coisas, ainda que elas estejam caóticas e causem nojo. Aproveitemos o final do ano para isso, sem esquecer, evidentemente, que apaixonados políticos e sectários não tiram férias.

“THE CROWN”, DA NETFLIX, É SIMPLESMENTE IMPERDÍVEL, ALIMENTO PARA NOSSO CÉREBRO

blogBeleza, sofisticação e refinamento são como o Bis da propaganda: depois que você experimenta um, não consegue mais parar. Confesso ao leitor: estava em crise de abstinência após “Downton Abbey”, de Julian Fellowes. Por isso fui ver “Dr. Thorne”, em apenas quatro episódios, adaptado por ele da novela de Trollope, passado na era vitoriana. Não bastou. Fui, então, ler Belgravia, seu livro ambientado em mesmo cenário. Excelente, mas ainda não foi o suficiente.
Já estava, portanto, a babar pelos cantos, feito um adicto enlouquecido, mendigando por pedaços de beleza, por pequenas quantias de sofisticação, por um segundinho só de refinamento e inteligência. Aplacava a angústia com os filmes de super-heróis no cinema, com os 007s, os mutantes da Marvel, os espiões Bourne da CIA, tudo num estímulo frenético de cenas impressionantes possíveis por produções milionárias.
Era bom enquanto durava, admito. Naquelas duas horas eu era transportado a um mundo paralelo, sob uma chuva tão grande de imagens inacreditáveis que a realidade era esquecida. Mas o cérebro, em seu estágio mais elevado, ficava de fora. Não era alimentado devidamente. E pouco tempo depois lá vinha ela, a maldita crise de abstinência. “Preciso de beleza!”, gritava tal qual um lunático. “Me dê refinamento!”, bradava aos olhares suspeitos de minha mulher, inclinada a chamar logo os homens de branco e encerrar o delírio.
Até descobrir “The Crown”, da Netflix. Que alívio! A sensação de vício atendido foi imediata, como um corpo em delirium tremens que entra em contato com a primeira gota de álcool. Pulando de um capítulo ao outro dos dez da primeira temporada, como quem tenta degustar cada pedacinho do Bis restante, acompanhei a história da jovem rainha Elizabeth, elevada à Coroa após a morte do pai, que por sua vez fora catapultado ao cargo pela renúncia do irmão, que escolheu o amor de uma mulher em vez do reino.
Que diálogos! Que delicadeza nas cenas! Que fascinante a atuação de John Lithgow como Sir Winston Churchill, talvez a personagem mais marcante de todo o século XX. Peter Morgan nos legou um marco da televisão, que atualmente só a televisão tem sido capaz, com uma mensagem de viés conservador tão em falta no mundo moderno. O embate entre o antigo e o novo está lá; a tensão constante entre o “progresso” moral e a necessidade de se conservar tradições está lá; o dilema entre a dignidade e a eficiência, como colocava Bagehot acerca do papel da monarquia e aquele do governo executivo, também está lá. Nem tudo é “produtividade”.
Os pobres de espírito poderão argumentar que a história não é condizente com os fatos, que de perto a família real do Reino Unido não é tão fascinante assim. Pobrezinhos. Não entenderam que a imaginação moral é mais importante ainda do que o puro relato factual, que os símbolos devem ser preservados, que um dos principais papéis da arte é justamente o de superar a vida. Ninguém precisa acreditar nos pormenores relatados na série para capturar sua essência, o que representa a monarquia britânica, as tradições que ela sustenta, a importância dos mitos como cola do tecido social.
Se tamanha complexidade puder ser resumida em uma expressão, eis o que, arrisco dizer, essa fantástica série transmite: o fardo das elites. Sim, os idiotas podem, de longe, enxergar apenas as maravilhas das quais desfrutam os reis e rainhas, os aristocratas, os ricos e poderosos, os líderes em geral. Mas, por trás de toda a fantasia e aparências, jaz a responsabilidade de decidir, de fazer escolhas difíceis, de enormes sacrifícios pessoais em nome de algo maior.
Churchill, num ato de profundo simbolismo conservador, renuncia ao cargo poderoso quando se dá conta de que não é mais necessário, e ainda pede para o motorista parar o carro para que possa ir cumprimentar seu substituto, que chegava para ser recebido pela rainha. Aquele aperto de mão significa o respeito pelo que é perene e está acima do efêmero, do temporário, das vaidades pessoais, das disputas de ego e poder.
A rainha Elizabeth, por sua vez, precisa optar entre agradar sua irmã mais nova, que pretende casar com um homem divorciado, ou preservar a ordem e respeitar a Igreja da qual é chefe. Os românticos podem ficar chocados com um dilema tão ultrapassado, mas é porque acreditam que só o coração pode ditar regras, que todos devemos dar vazão aos nossos apetites como se nada mais importasse. As elites não podem se dar a esse “luxo burguês”, pois há mais em jogo do que alcançam nossos sentimentos imediatistas.
Enfim, é nossa alma, nosso espírito que acaba sendo alimentado por esse tipo de arte mais refinada. Nosso intelecto precisa de combustível desse tipo, caso contrário o cérebro definha, alienado, pronto apenas para reagir aos frenéticos e passageiros estímulos. Mal posso esperar pela segunda temporada. Já estou cá novamente a babar, a procurar programas semelhantes, a folhear meus livros, com mãos trêmulas, ou apertar os canais em busca de algo do mesmo nível. Sou um viciado, confesso. Preciso de beleza!
Rodrigo Constantino

DO BAÚ DO JANER CRISTALDO- segunda-feira, junho 30, 2008 ALGO DE PODRE NO REINO DOS SVEAS

Como todo ser humano, desde pequeno, tive minhas simpatias e antipatias. Há pessoas de quem gostamos e outras que não. É normal, faz parte da vida. Isso de amar o próximo é coisa de cristãos. Neste mandamento, tanto Nietzsche como Kierkegaard viram uma negação do sentimento de amizade. Se tenho de amar qualquer um, a amizade, que é uma eleição, deixa de existir. Conheço pessoas absolutamente insuportáveis e delas tomo distância. Perto de mim, só os seres que me aprazem. Se o tal de amor cristão não poupa ninguém, vou poupar pelo menos a mim mesmo.

São muito raras as pessoas que entram em minha casa. São apenas aquelas por quem tenho muita estima. Se a estima ainda não existe, primeiro a gente se encontra no bar. Depois, veremos. O bar é uma forma de convívio interessante, uma ante-sala que não causa constrangimentos. Chego lá quando quero e saio também quando quero. Foi Kafka, creio, que imaginou uma casa onde todo mundo podia entrar quando quisesse e sair também quando quisesse. Ora, essa casa existe. Pelo menos no Ocidente. Por essas razões, continuamente recuso convites para festas em sítios, esta maison secondaire dos paulistanos. Como não tenho carro, viro refém de meu anfitrião. Quando alguém me convida para seu sítio, faço uma contra-oferta: “Escuta, faz um CD-ROM e eu curto teu sítio chez moi”.

O politicamente correto, pelo jeito, está correndo solto no reino dos Sveas. Um menino de oito anos de idade, em Lund, no sul da Suécia, está sendo acusado por não ter convidado dois de seus colegas para sua festa de aniversário. O caso foi levado ao Parlamento. É o que nos conta o Sydsvenskan. Segundo a escola da criança, ele teria violado o direito dos colegas excluídos. A Suécia está inovando em matéria de Direito. Temos agora a figura do colega excluído, isto sem falar no sagrado e inviolável direito de cada um de ir a uma festa particular.

O pai do menino fez uma reclamação formal junto ao ombudsman parlamentar. Ele argumenta que as duas crianças não foram convidadas porque uma delas não havia convidado seu filho para a sua festa e a outra havia brigado com ele. O menino distribuiu os convites durante o horário das aulas e quando o professor percebeu que dois alunos haviam sido excluídos, os convites foram confiscados. Um veredicto sobre o assunto deve ser anunciado em setembro.

Que veredito? Pretende o Parlamento obrigar alguém a convidar para uma festa pessoas que este alguém não quer como convidados? Pretenderá o Estado outorgar-se o direito de determinar quem alguém deve convidar em seu aniversário? O simples fato de o ombudsman parlamentar aceitar tal pleito tende a transformar uma residência particular em bar, estabelecimento público. Parafraseando o bardo: há algo de podre no reino dos Sveas.

PS - Falar nisso, na quinta-feira estou partindo para aqueles nortes. Entre coisas, quero degustar o podre. Não esta podridão politicamente correta, mas uma outra, culinária, la cuisine pourrie, como dizem os franceses. Falo do surströmming, um arenque do Báltico servido podre, muito apreciado no norte da Suécia. Em meus dias naqueles pagos, tentei degustá-lo e vomitei. Falta de educação palatar, certamente. Na época, eu não encarava nem camembert. Muito menos andouilletes, um embutido de tripa com tripas dentro. Hoje, uma de minhas motivações para ir a Paris são as andouilletes. É o primeiro prato que busco. Minha companheira da última viagem, ao provar um tequinho, quase teve minha mesma reação ante o surströmming em Estocolmo.

Só viagens educam o palato. Em Skellefeteå, no norte do país, há em agosto um festival anual do surströmming. Aos jornalistas estrangeiros, recomenda-se usar máscaras de gás. Mas se milhares de pessoas curtem o tal de peixinho podre, mau não há de ser. Verei.

“Quase 80% dos brasileiros gostaria de mamar no estado. O percentual restante já está mamando.” (Eriatlov)

“A maldade sempre encontra seguidores; às vezes por conveniência, às vezes por gosto próprio.” (Filosofeno)

“Quando a bajulação é exagerada, cuide dos bolsos.” (Filosofeno)

“A paixão tem seu lado perigoso. A paixão provoca cegueira.” (Filosofeno)