sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
DE CABO A RABO
Queria um país de dirigentes austeros
Severos
Mas o que temos?
Meros gastadores
Descomprometidos
Vivendo o faz de conta da responsabilidade
Num país pra lá de falido
Corrompido até o último fio de cabelo.
PREGUIÇA
Acordando
hoje com dois quatis nas costas
Exaltando a
siesta mexicana
Lembrei-me
da história do sujeito
Que de
preguiça morria de fome na cama
Foi então
que alma boa
Ofereceu-lhe
vida afora
Arroz com
casca em qualquer demanda
Para
aplacar sua fome a qualquer hora
Sabendo
disso o sujeito
Do arroz
com casca e não cozido
Agradeceu
do vivente a nobre fidalguia
Mas que
ante o trabalho da descasca
A boa morte
preferia.
PRIMO
Ernesto homem de boa
fé
Abiu o armário e nele encontrou um esqueleto
Sem roupas e com a óssea mão direita sobre a boca
E na óssea mão
esquerda um preservativo
Por ser um homem bom
Não fez nenhuma objeção
Quando a mulher contou-lhe a história
De um primo dela distante
Que entrou no armário para pregar-lhe um susto quando
chegasse
E que acabou esquecido.
MUI CORDIAL
O grande animal corre pela estrada
Na curva difícil tomba
O motorista jaz
A carga se dilacera
O povo cordial saqueia.
GARIMPEIRO URBANO
Ainda o sol
não nasceu
Sopra um
vento gelado pelas ruas da cidade vazia
Um
solitário de casaco puído e sujo caminha de olhos no chão
Mãos
trêmulas nos bolsos
Lábios
rachados e boca seca
Procurando
pequenos alentos nas calçadas e sarjetas
Pois é um
garimpeiro urbano
Um
garimpeiro de moedas perdidas.
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