segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Valentina de Botas: o recado foi dado
VALENTINA DE BOTAS
O sucesso das manifestações venceu. Com menos ou mais gente, o recado está dado: estamos fartos. Não entende quem não quer. Claro, o governo não quer e continuará morto insistindo em esquecer de deitar, mas nem o indignado mais enlouquecido de esperança supunha uma renúncia no crepúsculo deste domingo. Pois do lado oposto da civilização está uma presidente que verga, mas não se envergonha, afinal passar ao lixo da história como a primeira mulher eleita e reeleita pelo maior esquema de corrupção de um país democrático é pouco, ela também será esquecida como a governante mais detestada.
Fraca, como toda figura manipuladora, não suporta o peso da ética e, assim, parece preferir esperar que a verdade em gravidez avançada dê à luz as provas que já nascerão andando, falando e com dentes. Mais uma opção pela qual fará o país pagar mais caro. Todas as circunstâncias das manifestações anteriores se deterioraram, portanto, se Dilma não se inebriasse nessa hybris dos arranjos espúrios com quem também não pode se garantir, não tentaria chegar sã e salva à sepultura política. Mas ela é a governante estúpida que, ultrapassando os confins da desonra, riu da fala intolerável de Vagner Faria anunciado a luta armada.
O meliante faz qualquer coisa pela pixuleca farsante que representa a continuidade do regime que lhe garante tetas, boquinhas e crimes – por enquanto – impunes, inclusive revogar a luta dada como irrevogável. Achou melhor gastar nosso dinheiro no tal churrasco, delinquência menos arriscada. A nação pagou um mensalão resultante em pretrolão que a fez perder 20 anos em 10. Bancou caprichos pessoais de poder, gozo e grana de uma escória farsante. É esbulhada em tudo – desde a tremenda riqueza que produz, até os serviços públicos miseráveis; infraestrutura exaurida; reformas inadiáveis adiadas para nunca; passando pela desidratação criminosa das instituições republicanas e a mediocrização autoritária do debate.
E, então, quando grita na terceira manifestação deste ano a mensagem inequívoca de que está farta, os legalistas fundamentalistas repisam que a insatisfação popular não basta para destituir um governante. Ora, cidadãos de país nenhum protestam insatisfação com governantes honestos, competentes e democráticos, assim, a platitude desconsidera as razões do repúdio ao regime lulopetista. Livrar-se desses vigaristas sem fronteiras é muito mais do que sanar uma insatisfação ou mero exercício de autoestima, essa coisa banalizada que é quase outro flanco por onde os medíocres atacam, mas uma questão de sobrevivência, pois a nação e o futuro dela são incompatíveis com a república de pixulecos
Cada indignado tem vivido a constatação tristonha de Antonio Machado que acusou o “cuán dificil es, cuando todo baja, no bajar también”, mas os novos tons da mesma cor intensa da indignação na uniformidade do grito que a manifestação deste domingo alcançou e na bem-vinda presença de Serra e Aécio reforçam que a dificuldade de tudo dá a medida da vitória de homens e mulheres em busca de um país decente: não se render, independentemente de serem centenas, milhares ou milhões.
O mito Lula está acabado; PT agora torce para que a Justiça não acerte as contas com o homem Lula
Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu à manifestação, no instituto que leva seu nome, promovida pela CUT e pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC — onde ele nasceu politicamente, quando ainda apenas de São Bernardo e Diadema. Por que não? Inexiste explicação lógica. É claro que, segundo a narrativa que se conta no petismo, ele deveria estar lá, não é mesmo? Não pode se exibir como um símbolo, uma abstração intangível, até entre os seus. É que o contraste seria vexaminoso para ele. A sociedade civil, sem estrelas da grandeza do poderoso Babalorixá de Banânia, pôs mais se 600 mil pessoas nas ruas, segundo as Polícias Militares. Lula sabe que seu PT agoniza. E tem claro que a sua imagem está se esfarelando.
Brasil afora, ele próprio não era menos alvo dos protestos do que Dilma Rousseff. Aquele que Gilberto Carvalho dizia ser, ainda em 2013, o “Pelé” que estava no banco de reservas do PT é hoje tratado como um perna de pau. Jilmar Tatto, secretário de Transportes e homem forte do prefeito Fernando Haddad, afirmou que o protesto só existe porque a oposição teme Lula em 2018.
Para começo de conversa, não é certo que esse governo se segure até lá. Mas também isso já foi. O Lula imbatível nas urnas é hoje coisa de um passado até recente no tempo, mas muito distante quando se considera o ritmo acelerado em que amadurece a sociedade brasileira. Ninguém mais cai na conversa.
Lula até tentou nos últimos 15 dias revitalizar aquele papo furado da luta do “nós” contra “eles”; das “elites” contra o “povo”. Sempre foi uma falsa questão, sempre foi uma boçalidade política. Mas tão mais distante se torna quando se constata que, fora do governo, só em palestras estupidamente bem pagas, amealhou R$ 27 milhões, boa parte delas contratadas e pagas por empresas investigadas na Lava-Jato.
O companheiro, que pretende ser o monopolista do povão, é hoje um milionário, não é mesmo? E não haveria mal nenhum nisso se a fortuna, essa que conhecemos, houvesse sido conquistada longe do poder e de interesses que se entrelaçam com dinheiro público. Mas também isso não bate com a realidade.
Os lulistas gostariam que fosse verdadeira a falsa tese de que é a ruindade do governo Dilma que contamina a imagem de Lula. Não é, não! Há até uma possibilidade, no terreno estritamente pessoal, de que seja o contrário. Não é difícil a gente ouvir por aí que Dilma pode até ser honesta, o problema está no fato de ser tutelada por Lula e pelo PT. Desconheço se alguém já fez algo parecido, e fica aqui a dica: institutos de pesquisa deveriam escolher algumas personalidades públicas para que a população avaliasse a sua honestidade, com notas de zero a 10. Aposto que Dilma receberia uma pontuação acima da de Lula.
Na Avenida Paulista — e, segundo sei, foi assim em toda parte —, Lula não apanhou menos do que Dilma e do que o PT propriamente. Aquele que era o Pelé do banco, a eterna reserva moral para opor o povo à Dona Zelite, hoje já não é mais garantia de nada. Bonecos infláveis Brasil afora o caracterizavam como um presidiário.
E isso lança o PT num verdadeiro desespero. Os “companheiros” não sabem por onde recomeçar. Acusam conspirações as mais exóticas e variadas, mas nem eles acreditam seriamente em suas mentiras convenientes.
O mito Lula está acabado, e resta agora torcer para que a Justiça não resolva ajustar as contas com o homem Lula.
Texto publicado originalmente às 5h03
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