quarta-feira, 4 de março de 2015

TROMBETA DOS FISIOLÓGICOS- Por Orçamento, Dilma garante R$ 10 milhões a deputados novatos

“Visite empreendedores brasileiros antes que a voracidade do estado acabe com eles.” (Mim)

“Quem produz neste país está sempre em estado de ‘coma’ perante o estado.” (Pócrates)

“O ‘Estado’ é um bordel, e as putas somos nós, os contribuintes.” (Mim)

“O ‘Estado’ é um boca grande, cínico devorador de impostos.” (Pócrates)

O milagre do emprego: a importância da flexibilidade dos salários

“O poder sindical é essencialmente o poder de privar alguém de trabalhar aos salários que estaria disposto a aceitar.” (Hayek)
Qualquer liberal entende que, por mais bem intencionada que seja, uma lei que tenta estabelecer um patamar artificial de retorno está fadada ao insucesso. É justamente este o caso do salário mínimo. Parece natural que as pessoas de bem observem os baixos salários de certas funções e fiquem revoltadas, defendendo que o governo passe a intervir para desfazer tal injustiça. Infelizmente, o inferno está cheio de boas intenções, e este é apenas mais um caso onde a boa intenção não consegue alterar a lógica econômica. O tiro sai pela culatra.
Todo preço será definido pela lei da oferta e demanda, não há como escapar disso. O salário é mais um preço, e segue o mesmo princípio. Os empresários assumem um risco pela incerteza do futuro, e antecipam parte dos ganhos aos trabalhadores, através de salários fixados independente do lucro do negócio. Em outras palavras, os empresários estão reduzindo as incertezas dos trabalhadores, definindo a priori seus ganhos, enquanto o resultado dos acionistas é totalmente incerto, podendo variar de um prejuízo que leva à bancarrota até um lucro extraordinário. Neste ambiente de riscos e incertezas, os empregadores procuram pagar o mínimo possível aos empregados, e este preço será basicamente dependente da produtividade do trabalho. Por outro lado, os empregados estarão buscando maximizar seus ganhos, como qualquer indivíduo. No encontro dessa oferta de trabalho com essa demanda pelo trabalho, ocorrerá uma troca voluntária, significando que aquele preço estabelece uma transação mutuamente benéfica, dado as circunstâncias. Fica claro que quanto maior a demanda por trabalho, ou seja, quanto mais competição houver entre empregadores, mais alto tende a ser o preço do salário. Em contrapartida, quanto maior for a oferta de trabalho, menor tende a ser o salário.
Com isso em mente, fica mais fácil entender porque o salário mínimo não ajuda os mais pobres. Ele costuma ser definido sempre acima deste nível de mercado, caso contrário não faria sentido existir. Mas isso faz com que empregadores desistam de contratar empregados com baixa produtividade, pois passa a não ser vantajosa tal contratação. Em A Solução Liberal, Guy Sorman trata do tema, explicando que “os que trabalham e não querem dividir construíram em torno da cidadela uma muralha, a mais alta possível: ela se chama ‘salário mínimo’”. Os trabalhadores ficam assim protegidos contra todos aqueles cuja produtividade não vale o salário mínimo, isto é, os mais jovens e os menos qualificados. Ele continua: “Os sindicatos só protegem os sitiados que constituem sua clientela principal, não os desempregados, que não militam e nem são contribuintes”. Além disso, “esses defensores dos direitos dos trabalhadores criaram uma técnica que mantém os sitiantes à distância: o seguro-desemprego”. Quanto mais alto for este, menos os assaltantes mostram agressividade. Em resumo, o salário mínimo seria uma conquista dos sindicatos e seus aliados à custa de todo restante, principalmente dos desempregados que aceitariam trabalhar por um pouco menos.
Sendo Guy Sorman um francês, ele escreve com conhecimento de causa. A rigidez das leis trabalhistas na França é enorme, e os sindicatos são muito poderosos. Recentemente, o desemprego entre os jovens estava na faixa dos 20%, e entre os jovens imigrantes chegava a 50%. O caso brasileiro também é muito útil para exemplificar esta teoria. Com leis trabalhistas que datam dos tempos fascistas, além de sindicatos muito poderosos, o desemprego é elevado e a informalidade chega a praticamente metade do total de empregos. É o resultado claro do excesso de encargos e privilégios artificiais, eufemisticamente chamados de “conquistas trabalhistas”. São conquistas sim, mas apenas daqueles dentro do sistema, que criam regras através do governo dificultando o acesso dos demais, mantidos no desemprego ou informalidade, sem benefício algum. Enquanto isso, as leis trabalhistas dos Estados Unidos são consideradas como uma das piores do ponto de vista de direitos legais, por serem flexíveis demais, e no entando os trabalhadores ganham muito mais que a média do resto do mundo.
Isso faz Guy Sorman concluir que “a chave do pleno emprego reside, pois, realmente na flexibilidade dos salários, o que não significa sua redução geral, mas sua adaptação, caso por caso, à situação da empresa”. Ele compara a situação no Silicon Valley, com muita flexibilidade e praticamente sem desemprego, com a de Detroit, com regras rígidas, mas 12% de desemprego na época que o livro foi escrito, na década de 1980. Ainda assim, Sorman separa a solução liberal em duas vertentes, a do velho liberalismo e a do novo. Para o velho, bastaria “demolir as paredes da cidadela do emprego, reduzir o seguro-desemprego, suprimir o salário mínimo, colocar de novo todo mundo na concorrência, e a flexibilidade geral dos salários restabelecerá automaticamente o pleno emprego”. Ele entende que isso está perfeito na teoria, mas considera politicamente absurdo, inalcançável. Os assalariados não teriam como ver de imediato os benefícios, e se organizariam para impedir tais mudanças.
Isso leva Guy Sorman à solução proposta pelo novo liberalismo, que seria defender uma espécie de “emprego para a vida toda”. Em outras palavras, uma participação dos empregados nos negócios. Os empregados passariam a aceitar que os salários fossem tributários dos resultados de cada empresa. Sorman acredita que esta talvez seja a única condição para que a flexibilidade seja aceita. Os empregados estariam mais claramente unidos aos acionistas no risco do negócio. Teriam que aceitar as maiores incertezas e, portanto, maior volatilidade dos ganhos também. De fato, nos Estados Unidos vem ocorrendo algo deste tipo, já que o capital das corporações é totalmente pulverizado entre milhares de empregados através dos fundos de pensão e plano de opções de ações. Trata-se nitidamente de uma saída liberal, decidida entre empregados e empregadores, independente do governo. Este, no fundo, passa a ser visto como o inimigo comum tanto de trabalhadores como patrões, tributando pesadamente os ganhos da empresa.
De forma geral, o mais importante é entender que o “milagre” do emprego não tem nada de milagre na verdade, tampouco através da caneta estatal. Ele é fruto de uma lógica econômica, e o melhor caminho para valorizar o emprego é torná-lo realmente valioso. Isso é possível pelo aumento da produtividade do trabalho, de uma ampla competição entre empresas e de grande flexibilidade das leis trabalhistas.
Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

Vazio existencial: quando a fuga do tédio é mortal

“O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a pobreza.” (Voltaire)
Suportar a angústia do desamparo existencial não é moleza. Para muitos, a religião é o que dá sentido à vida. Para outros, as artes e a filosofia. No meio do caminho, diversos tipos de fugas tornam a vida mais suportável. Esportes, trabalho, hobbies, todo tipo de estímulo para que o ócio não venha cobrar reflexões mais profundas. Poucos encaram com coragem o tédio. Especialmente nas gerações atuais…
Acostumados a estímulos ininterruptos desde muito cedo, à conexão virtual incessante, os jovens de hoje não aguentam nem cinco minutos sem nada fazer. É um desespero para a grande maioria. Ser obrigado a pensar na própria vida, mergulhar nos próprios pensamentos e angústias, torná-las fogo criativo para alguma coisa? Nem pensar! Um jogo imediatamente, um bate-papo nas redes sociais, um filme bobo, qualquer coisa! Um livro já é uma fuga mais rara, pois exige uma paciência cada vez mais escassa.
Em casos extremos, o vazio existencial é preenchido por estímulos mais perigosos, como as drogas. Se as religiões, os esportes e o trabalho historicamente afastaram jovens desse caminho, hoje os limites e os freios aos apetites destrutivos se encontram enfraquecidos em uma mentalidade que diz que o importante é dar vazão aos desejos, viver como se não houvesse amanhã, seguir os impulsos. Carpe Diem!
Falo tudo isso para chegar ao lamentável caso do aluno que morreu após beber 30 doses de vodca numa festa universitária. Ironia das ironias, ele tinha registrado em sua página do Facebook que é melhor morrer de vodca do que de tédio. Dito e feito, para a tristeza de seus amigos e familiares. Que tipo de angústia leva alguém a uma fuga tão desesperada? Francisco Razzo, professor de filosofia, fez uma boa reflexão em sua página de Facebook, com base em Pascal:
“Melhor morrer de vodca do que de tédio”, palavras encontradas no perfil do estudante da Unesp morto por ingerir uma quantidade absurda de vodca na festa da faculdade. A inevitabilidade de uma vida oca. A expressão “melhor morrer de vodca do que de tédio” assinala a vidinha pra lá de entediada dessa adolescência ontologicamente miserável. E nada melhor do que Pascal para definir essa doença de morte: “Tédio (Ennui): Nada é mais insuportável ao homem do que um repouso total, sem paixões, sem negócios, sem distrações, sem atividade. Sente então seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Incontinenti subirá do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, a pena, o despeito, o desespero. (Pascal, Pensamento 131). Para alguns, eis a sedução da vodca.
Muitos acham que algum tipo de entorpecente será inevitável para tornar a vida suportável. Outros alegam que a própria religião é um ópio, ou que também as artes servem ao propósito de entorpecer. Talvez. Mas convenhamos: há fugas e fugas. Quem vai comparar a “fuga” por meio da literatura clássica com um simples porre à base de vodca? Quem vai comparar a “fuga” por meio de uma sinfonia de Beethoven, ainda que regada com o néctar de Baco, ao consumo desenfreado de drogas sintéticas? Quem vai comparar uma “fuga” com base numa vida produtiva no trabalho com um baseado de maconha?
Um comentário final que gostaria de fazer sobre o lamentável episódio diz respeito à responsabilização pelo ocorrido. Automaticamente surge a demanda por bodes expiatórios. Querem culpados, mas não olham para aquele que tomou as decisões erradas, que fez as escolhas equivocadas. Hélio Schwartsman falou disso em sua coluna de hoje, usando como analogia o discurso da presidente Dilma culpando FHC pelo petrolão:
“A culpa é do FHC.” A escusa favorita de Dilma Rousseff, receio, está fazendo escola. Não que todos estejam incriminando o tucano por tudo de errado que acontece no país, mas parece cada vez mais prevalente a tendência de não assumir as próprias responsabilidades, preferindo imputar sempre a um terceiro os resultados indesejados de suas decisões ou atitudes.
[...]
Num exemplo concreto, o jovem estudante ingere voluntariamente 30 doses de vodca numa festa universitária, entra em coma e acaba morrendo. De quem é a culpa? Para o delegado que investiga o caso, o rapaz foi assassinado pelos organizadores da festa, que foram presos sob a acusação de homicídio com dolo eventual.
Não estou aqui afirmando que os organizadores não violaram nenhuma lei ou norma de segurança nem que não tenham de alguma forma contribuído para o trágico desfecho, mas não me parece que faça muito sentido equiparar sua atitude à de alguém que tira intencionalmente a vida de outra pessoa (homicídio doloso) ou mesmo à do sujeito que dá um tiro no rival mirando sua perna, com o objetivo de assustá-lo, mas acerta o coração e acaba por matá-lo (um caso mais clássico de dolo eventual, em que perigos concretos são conscientemente desprezados pelo agente).
As pessoas precisam assumir a responsabilidade por seus atos. A geração narcisista e mimada de hoje não só não suporta o tédio nem por cinco minutos, pulando de fuga em fuga desesperadamente, como ainda culpa os outros por todos os seus problemas. Melhor seria se tentassem encontrar um verdadeiro sentido mais elevado para suas vidas.
Rodrigo Constantino