sábado, 7 de fevereiro de 2015

ORDEM LIVRE- Protecionismo...contra você



A crise econômica, cujo fim ainda quase ninguém enxerga, está tendo alguns resultados bons, ainda que penosos. Um dos maus resultados é o aumento do protecionismo em vários lugares do mundo.

Aqui no Brasil temos um vício histórico a favor do protecionismo que nos foi propiciado por uma política de severas limitações a importações desde a década de 1950, que só começou a ser liquidada pelo governo de Fernando Collor, no início da década de 1990.

Nos industrializamos, é verdade, mas quem pagou por esta industrialização foram os brasileiros comuns, que subsidiaram empresas escolhidas pelos sucessivos governos.

Na hora em que foram implementadas, as políticas podiam parecer sensatas, mas elas não resistiram ao teste do tempo: a maioria das empresas protegidas pelas políticas protecionistas não conseguiram virar o século como empresas viáveis. A maior parte delas naufragou pelo simples fato de não serem competitivas do ponto de vista das escolhas dos consumidores.

Agora, com a crise a tentação voltou. Vamos tentar olhar ao longo deste artigo como as políticas protecionistas, no fundo, só protegem você, consumidor, contra preços mais baratos dos produtos que você almeja ter.

“País rico é país sem pobreza” é o slogan do governo Dilma, mas há uma cacofonia econômica quando o governo propala isso e ao, mesmo tempo, anuncia políticas protecionistas.

Políticas protecionistas para evitar a “invasão” de produtos baratos querem dizer, na verdade, que você, brasileiro, será obrigado a pagar mais caro por produtos, muitas vezes, piores.

Políticas protecionistas sempre são trombeteadas como grande vitória dos brasileiros.

Falta o lado oculto da história. Henry Hazlitt, em seu clássico Economia numa única lição, ensina que, para analisar qualquer política pública, é importante virá-la pelo avesso e fazer algumas perguntas: Quanto custa? Quem paga? Quem vai se beneficiar, a curto e a longo prazos? E quem pagará a farra?

Sem respostas a estas perguntas, qualquer política pública que pareça ótima pode ser, na realidade, péssima para a população.

Perdem os cidadãos e ganha o governo que passa a cobrar impostos mais caros. Com uma penada aumenta o preço e a arrecadação. O cidadão só pode comprar se concordar em pagar um pouco (ou muito) mais caro.

Em 1995, o modelo mais simples de liquidificador existente no mercado americano custava 14 dólares e 99 centavos. No Brasil, o equivalente mais barato, produzido no Brasil, custava 45 reais. Traduzido: os pobres brasileiros (que já eram várias vezes mais pobres do que os pobres americanos) tinham que pagar três vezes mais pelo mais elementar eletrodoméstico: um motor de alta rotação, com uma hélice afiada e um copo em cima.

Agora o governo aumentou os impostos de vários importados, alegando proteger o consumidor brasileiro contra produtos estrangeiros de má qualidade. Ora, quem precisa julgar a qualidade do produto que consome é o usuário e não um grupo de burocratas muito bem pagos e bem servidos de eletrodomésticos, simples e complexos.

Já tivemos proteções contra tecidos de algodão, calças do tipo jardineira, automóveis e motocicletas, barcos, freezers, fogões, leite em pó, celulares, trigo, nozes, ketchup e molhos de tomate, gomas de mascar sem açúcar, sucos de frutas, metanol, medicamentos com paracetamol, perfumaria, dentifrícios, batons, xampus, pneus, lâminas de barbear, abrunhos frescos e óleos de nabo silvestre. Vejamos o que vem agora.

A roupa será bonita: a defesa do interesse do consumidor brasileiro. A realidade será bem mais amarga: preços mais caros para coisas que os consumidores querem porque, no seu julgamento, elas são melhores ou mais desejáveis.

Todos falam de lobby, mas poucos sabem como ele funciona. Na versão light, senhoras e senhores simpáticos argumentam com burocratas porque o governo deve sobretaxar este ou aquele produto. Na versão mais pesada, dinheiro muda de mãos em troca de decisões governamentais protecionistas. Na versão violenta, funcionários contrários ao protecionismo chegam a sofrer ameaças de retaliações físicas, como me contou um diplomata envolvido em negociações comerciais internacionais.

A tarefa dos lobistas é tentar convencer os burocratas de que seus produtos e não outros, devem entrar na lista. Assim engordam artificialmente os lucros das empresas para as quais trabalham e nós, brasileiros, pagamos a conta.

A razão é simples: como os produtos ficarão mais caros se forem importados, fabricantes locais ganham uma bela licença para cobrar mais caro pelos seus produtos no Brasil.

Aí é que porca torce o rabo, caro leitor: a retaliação nada tem a ver com uma vitória de governos uns sobre outros. Ao contrário, ela é uma tremenda derrota, para você, porque a conta é toda sua.

Todo esse dinheiro sairá do seu bolso: o governo autorizará os produtores brasileiros (ou que fabricam no Brasil) a aumentar os preços de tudo o que entrar na lista, financiados com os seus caraminguás.

Isso mesmo, caro leitor, além de trabalhar de janeiro até quase fins de maio de cada ano (ou de junho, se você for mais pobre) para pagar os impostos que já existem, o governo autorizará um grupo de empresas que foram mais eficazes em buzinar o interesse delas em sobretaxas nas orelhas burocráticas brasilienses, a transferir os problemas de incompetência empresarial delas, para o seu bolso.

Já está com dor de cabeça? Trate de encontrar um remédio fora da lista de proteção, senão a sua dor de cabeça custará mais caro.

Em suma, meu caro leitor, voltando a Henry Hazlitt, essa vitória que será vendida pelo governo como sua, será uma grande derrota porque o que o governo estará fazendo cortesia com o seu chapéu; cada vez que ele cobrar mais caro o imposto de importação de um dos produtos da lista, será a sua cabeça que ficará descoberta.

Assim, não se apresse em comemorar uma vitória que não é sua; é dos produtores beneficiados e do governo que arrecadará mais impostos.

Essa política é uma grande potoca.

A parcela do pessoal que entrou nas classes C e B, em parte, graças a produtos importados mais baratos, não vai nada ficar feliz de ser forçada a voltar às suas classes de origem por um capricho burocrático para beneficiar os vizinhos do Mercosul.

Como sempre, o governo resolveu fazer propaganda para tentar fazer você acreditar que saiu ganhando, quando você será o grande perdedor.

De quebra, já está proibida desde 1º de julho a venda de todos os aparelhos elétricos que tenham qualquer tipo de plug que não novo de três pinos redondos fora de linha, cortesia dos sábios do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial). Multa para os comerciantes flagrados vendendo outros tipos de plug ou tomada: até 1.5 milhão, mais o salário de 700 fiscais.

Parabéns, o pagamento de todas estas contas sairá do seu bolso.

* Publicado originalmente em 09/12/2011.

“É bem mais fácil enumerar os males dos quais não sofro que fazer uma listagem daqueles que me afligem.” (Nono Ambrósio)

“Nós leões não beijamos muito. Nosso bafo não motiva.” (Leão Bob)

“Aqui na savana não tem perdão. Turista distraído é refeição.” (Leão Bob)

O orgasmo da esquerda caviar com a desgraça grega



Capa Esquerda Caviar Portugal
Como já comuniquei aqui, meu livro Esquerda Caviar ganhará uma edição portuguesa nos próximos meses. Tive a honra de ter um prefácio brilhante (já li, mas é supresa) escrito pela pena do genial João Pereira Coutinho, e a orelha escrita por meu amigo Bruno Garschagen. Este, que acompanha mais de perto as notícias lusitanas, pois viveu em Portugal, mandou-me hoje esseexcelente texto de Miguel Angel Belloso, publicado no Diário de Notícias, caderno de opinião.
O autor vai direto ao ponto, sem rodeios, e mostra profundo desprezo pelos “intelectuais” progressistas em relação ao desenrolar político na Grécia. O uso do termo “esquerda caviar” já no título mostra como terei importantes aliados por lá, nessa luta contra a hipocrisia e alienação dos socialistas das elites, esses “pensadores” que flertam com o radicalismo irresponsável e populista só como pretexto para atacar o capitalismo, que adoram odiar (desde que possam continuar usufruindo de suas benesses, claro).
Seguem alguns trechos do ótimo desabafo de Miguel:
Hoje escrevo verdadeiramente comovido. Os intelectuais “progressistas” – a esquerda caviar – recuperaram as ilusões com a vitória do Syriza na Grécia. Parece uma criança com sapatos novos. Acredita que está aberto o caminho para uma era dominada pelo regresso da política, ali onde governava a ditadura obscena dos mercados. A mim, esta espécie de orgasmo parece-me cómica, ainda que tenha uma certa explicação. Os intelectuais do regime politicamente correto andam desorientados há décadas. Pensaram que com a crise do Lehman Brothers, e a dura recessão que se lhe seguiu, tinha chegado novamente a hora deles. Que o capitalismo tinha fracassado tanto como o comunismo. Mas sentiram-se de novo atraiçoados e confusos. Quando a oportunidade de se afirmarem estava ao alcance da mão, acontece que em França os socialistas Hollande e Valls estão a pôr em marcha políticas para reduzir a despesa pública, diminuir impostos e liberalizar a economia, eliminando privilégios e fomentando a concorrência. E que em Itália, o socialista Renzi está a empreender uma reforma laboral que pretende liquidar as sinecuras dos sindicatos apesar dos protestos. Nesta situação, estes rapazes tão espertos, que viveram toda a vida como deuses, tomando champanhe com morangos ao pequeno-almoço à custa de manterem sequestrado o espírito dos mais pobres e desfavorecidos, perguntam-se: o que nos resta? O que poderemos esperar? Onde iremos chegar se a grande França, pátria do acolhimento e dos direitos sociais, se propõe diminui-los, ou na Itália herdeira da eterna Roma governa um socialista heterodoxo?
[...]
Não há que ter piedade com os extremismos, que optam sempre por políticas económicas erradas e levam à ruína os países onde têm possibilidade de governar. Como a boa vida que a esquerda caviar sempre desfrutou acaba por deteriorar os neurónios e promover o pensamento frouxo, os “progressistas” pensam que o Syriza levará a cabo o milagre e reconverterá com êxito a social–democracia. Estão enganados. As usual. O partido de Tsipras tem pouco que ver com a esquerda convencional, que sempre tratou de tornar compatível os seus devaneios com a despesa social, e o seu afã redistributivo como a manutenção dos equilíbrios financeiros. Tsipras sente uma desconfiança natural da economia de mercado e é puramente estatista. Não há nada de bom a esperar dele, salvo que baixe as calças. E de momento não está disposto a isso.
[...]
A esquerda tem a ideia estúpida de que, aumentando artificialmente a capacidade aquisitiva dos cidadãos, a procura sobe e um país volta a crescer e a gerar emprego. Mas num mundo globalizado, as pessoas dos Estados livres e democráticos têm a capacidade de escolher. Não são obrigadas a comprar os produtos nacionais, pode acontecer, portanto, como tantas vezes sucedeu em Espanha, que o aumento do poder de compra sirva para enriquecer os países que ofereçam os produtos de melhor qualidade ao melhor preço, que é o santo-e-senha do capitalismo. Os intelectuais rive gauche têm como aliado dos seus absurdos postulados o prémio Nobel Paul Krugman, que há já tempo perdeu a cabeça em defesa das esquerdas americana e europeia. Mas trata-se de um aliado frágil. Nos EUA, o país mais flexível e inovador do mundo, a oferta é imensa e capaz de satisfazer qualquer aumento de procura, o que não aconteceu até agora em Espanha e, desde logo, está longe de acontecer na Grécia, muito menos sob as políticas anunciadas por Tsipras.
[...]
Estão a ver, portanto, que não sinto nenhuma compaixão pelos gregos. Escolheram o pior e terão de pagar as consequências. Mas pelos intelectuais de esquerda que lhes deram alento e que continuam a dar-lhes ânimo a caminho do precipício, ou pelos que em Espanha convidam a imitar a experiência votando no Podemos, sinto repulsa, porque dedicaram-se a vida toda a difundir arengas erradas sem jamais arriscar o que quer que fosse.
O que mais comentar? A esquerda caviar é igual no Brasil e em Portugal, nos Estados Unidos e na França. Trata-se de uma turma que vibra quando um povo caminha na direção do abismo, tudo para poder atacar o maldito capitalismo. Quantas pessoas a mais terão de sofrer as consequências nefastas do socialismo até que esses “intelectuais” abandonem suas receitas estúpidas?
Rodrigo Constantino

“Roubam-nos, destroem instituições antes dotadas de credibilidade, e para justificar este carnaval de incompetência acusam a oposição, algo que não existe no Brasil, de golpismo.” (Eriatlov)

LEANDRO NARLOCH- Não, o problema do Brasil não é o brasileiro

Falta água, sobra inflação, falta luz, sobram escândalos, o Congresso e as escolas públicas são pura piada, as ações da empresa que prometia ser orgulho nacional valem trocados. Com tanta notícia apontando para um colapso nacional, é fácil culpar a própria cultura pelos erros do país e cravar que “o problema do Brasil é o brasileiro”.
Não somos os únicos a culpar a própria cultura. Os argentinos, numa versão similar ao nosso “é culpa de Portugal”, atribuem suas falhas à colonização de “brutos” espanhóis e italianos. Só que uma colonização muito parecida ocorreu no Chile, o sensato Chile. Os italianos até concordariam com os argentinos, pois também acham que o problema da Itália é o italiano. Sobre a Venezuela, já vi gente afirmando que a herança histórica e cultural levou os venezuelanos ao autoritarismo. Mas então o que dizer de colombianos e panamenhos, tão parecidos culturalmente e cada vez mais liberais?
No Brasil, a ideia de algum traço da cultura sabota o país se manifesta à esquerda e à direita, em conversas de rua e em teses universitárias. Tem quem explique os problemas nacionais por uma suposta preguiça de negros e mestiços. “O brasileiro é pobre porque não gosta de trabalhar”, ouvíamos anos atrás. Hoje se propaga uma versão simétrica desse equívoco. O problema não seria os negros, mas os brancos: a raiz das mazelas nacionais seria uma elite branca preconceituosa e apegada a privilégios.
Na rua, dizem que culpa é do jeitinho brasileiro, a nossa bem conhecida habilidade de ignorar as regras e favorecer parentes e amigos. Na Unicamp, empilham-se teses sobre os efeitos da “herança escravagista do Brasil patriarcal”, que teria criado uma elite acostumada a viver do esforço dos outros. Como se estivéssemos presos a um determinismo sociológico.
Longe de mim ter orgulho ou defender a cultura brasileira (ou qualquer cultura nacional). Meu ponto é que outros povos cheios de defeitos atropelaram arcaísmos e prosperaram. Os americanos sulistas são muito mais racistas que nós – mas isso não impede que a renda média dos negros americanos seja duas vezes a dos brasileiros. Ingleses até hoje mantém distinções de classe, o que muito professor da Unicamp consideraria motivo suficiente para subdesenvolvimento. Nos anos 70, pouca gente acreditaria que países da Ásia seriam tão ricos e desenvolvidos quanto os europeus. Era comum pensar que algum traço cultural limitava o progresso da Ásia, como o confucionismo na China. Hoje o PIB per capita de Hong Kong é 40% maior que o da Inglaterra; o de Cingapura é duas vezes o da França.
O problema não é cultura, mas as regras do jogo. O jeitinho brasileiro não é exclusivo ao Brasil – na verdade existe em todo lugar com excesso de burocracia. Um venezuelano ou um lord inglês, depois de um período de adaptação, vão andar na linha num ambiente em que outros andam na linha, e vão picaretear se acreditarem que os outros picareteiam sem serem punidos. Se há instituições (públicas ou privadas) que façam valer o que foi combinado e garantam direitos de propriedade, a cooperação aparece.
Dito isso, admito que há teses de peso sobre características da população capazes de influenciar a política. Os economistas Alberto Alesina e Edward Glaeser acreditam que, em países com mais diversidade étnica, as pessoas são menos dispostas a contribuir com o estado de bem-estar social (por isso os EUA não teriam um sistema equivalente ao da homogênea Dinamarca). Também se diz que, em países mais desiguais, os governos são mais irresponsáveis na economia, pois tendem a sacrificar as contas públicas com assistencialismo, para garantir o voto dos pobres. Mas isso diz pouco sobre costumes ou herança cultural: aconteceria com alemães ou dinamarqueses nas mesmas condições. E não impediu os Estados Unidos – um país tão heterogêneo quanto o Brasil e bem mais desigual que a Europa – de enriquecer.
O Brasil, como mostra o noticiário das últimas semanas, tem problemas de sobra. Mas o brasileiro não é um deles.