segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DIÁRIO JUMENTINO- Datafolha: 68% responsabilizam Dilma por petrolão

Alguém explica? Ela não pode sair às ruas sem ser vaiada, 68% acham que ela tem responsabilidade sobre o Petrolão, e mesmo assim levou?

CADÊ O DÉFICIT QUE ESTAVA AQUI? por Percival Puggina. Artigo publicado em 07.12.2014

Retirar do mundo dos fatos o estouro do orçamento da União foi uma proeza como poucas. "Cadê o déficit que estava aqui?", perguntava, zelosa, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). "O gato comeu", respondeu o Congresso, em sessão comandada por Renan Calheiros. A estatura moral desse senhor foi decisiva para seu retorno ao cargo no ano passado. E a longa jornada dos dias 3 e 4 de dezembro justificou plenamente a escolha do situacionismo. Renan cumpre contratos, seja para vender boiadas em Alagoas, seja para conduzi-las em Brasília. E tudo foi feito às claras, com as galerias vazias. Pudor exagerado. Até para entrar em cinema pornô basta ter mais de 18 anos.
 Assisti pela tevê boa parte da sessão. Havia algo incomum nos discursos governistas. Raramente, os defensores do PLN 36 exaltaram os méritos do projeto. Foi como se reconhecessem que não os tinha. Sua aprovação era uma necessidade prática e urgente. Tratava-se de impedir que a oposição, fazendo uso daquela coisa perversamente neoliberal que é a LRF, acusasse a presidente de crime de responsabilidade. Esse era o resumo da pauta.
 O deputado líder do governo, periodicamente, subia à tribuna e repetia o mesmo discurso ufanista. Fazia lembrar a personagem de Lewis Carrol no país das maravilhas. Falava como se fosse líder de um outro partido, de um outro governo, num outro país. Mas sobre os méritos do projeto, quase nada. Entende-se. Exigir do governo o cumprimento das leis é desatino próprio de fascistas e golpistas. O senador Lindbergh Farias dizia a mesma coisa. Quem hoje nos governa, quando na oposição, promove furiosas campanhas tipo fora este, fora aquele, fora todo mundo. Mas ai de quem, por maiores que sejam os escândalos, as promova contra eles.
O Planalto preparara tudo direitinho. "Extra, extra! Governo pode liberar R$ 10 bilhões!". Na sexta-feira, 28 de novembro, o anúncio atravessara os corredores do Congresso em edição extraordinária do Diário Oficial da União. Estava bem claro no texto do decreto sobre o qual se debruçavam os figurões e as figurinhas das duas Casas: a liberação, que incluía as sacrossantas emendas parlamentares e os constitucionais repasses aos Estados e municípios, dependeria da aprovação do PLN 36. Coerência em estado puro. Num governo onde é difícil encontrar área que não tenha virado Zona de Livre Comércio, não se haverá de estranhar que apoio parlamentar e quorum sejam negociados com dinheiro dos impostos que pagamos. A política, no Brasil, virou um exemplo para a população. Para a população carcerária, quero dizer.
Zero Hora, 07/12/2014

Blog do Leonel Kaz- “É COMO SE HOUVESSE 27 PAÍSES DENTRO DO BRASIL”



A frase acima foi transcrita do artigo de VEJA sobre a Casa Martins, de Uberlândia, o maior atacadista do país: “A Martins mantém em diferentes estados equipes de advogados que acompanham todas as normas vigentes e estão atentos a todas as mudanças na legislação.  Somente em 2013 ocorreram 8.100 alterações, uma média de trinta por dia útil. “É como se houvesse 27 países dentro do Brasil”, diz Faria ( um dos diretores)."EM homenagem ao notável artista que é Ronerto Magalhães, mostro estes pobres náufragos da burocracia esperando que a cabeça-ilha do burocrata venha a expelir um novo código de suas entranhas...
A frase acima foi transcrita do artigo de VEJA sobre a Casa Martins, de Uberlândia, o maior atacadista do país: “A Martins mantém em diferentes estados equipes de advogados que acompanham todas as normas vigentes e estão atentos a todas as mudanças na legislação. Somente em 2013 ocorreram 8.100 alterações, uma média de trinta por dia útil. ‘É como se houvesse 27 países dentro do Brasil’, diz Faria (um dos diretores).” Numa leitura pessoal da obra de  Roberto Magalhães, os brasileiros (estes náufragos!) esperam a cabeça-ilha do burocrata expelir um novo código de suas entranhas…

1. Tenho uma empresa mínima, mas perco tanto tempo com burocracia quanto, proporcionalmente, uma Petrobras. Agora, a qualquer momento, tenho de ir ao cartório, para a assinatura presencial de documentos. Agora, há que todos os meses enviar ao Procon um documento de que não houve reclamações contra minha empresa no livro de reclamações de minha empresa. São 12 documentos por ano que compete a todas as empresas do país: o mesmo papel vale para a Petrobras com 80 mil funcionários ou para a minha, com um. Não seria mais fácil o oposto: enviar a reclamação quando ela existisse?
2. Quando entramos num banco, salta aos olhos (e ao bolso!) a lista infinita de taxas cobradas, em dois imensos cartazes: um para pessoas físicas e o outro para jurídicas – num modelo espantoso de “bi-tributação” de tudo quanto já temos de pagar. Trata-se da mesma enxurrada impositiva (de impostos), que temos na vida cotidiana, que sempre crescem em número e valor.
3. O shopping Nova América, do Rio estabeleceu um “Código de Conduta para Clientes” que diz: “É proibido vadiar pelo shopping sem motivo específico de estar presente”. Então, quer dizer que o direito de ir e vir, de contemplar e ser contemplado, de utilizar o acaso da vida para o encontro não vale mais nada? Sem entrar no novo “Código”, que é tosco, apavora imaginar que há um legislador atrás de cada porta, em cada esquina, todos os dias propondo novas leis, decretos, portarias.
4. Aliás, legisladores públicos e privados (estes estabelecendo “Códigos”), que se miram no exemplo que vem de cima: não foram nossos legisladores eleitos que colocaram na Constituição um extemporâneo artigo dizendo que o “ O Colégio Pedro II será para sempre federal”… Pode, Arnaldo?
5. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, de 1936, já mencionava este traço constante de nossa vida social: certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das manifestações do espírito prático ou positivo.
6. Diz o historiador: “É que para bem corresponder ao papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento de conhecimento e de ação. Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais, como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza.”
7. Os anéis de grau, no campo do Direito, vem conferindo poderes a legisladores de shoppings, de bancos, os municipais, os estaduais, os federais…  Há uma pletora de gente sempre disposta a determinar o que o outro deve fazer, o que o outro deve pagar. Não há um mínimo de misericórdia em pensar no que podemos fazer, em conjunto, para diminuir a imensa carga de papeladas que nos atormentam no dia-a-dia.
8. Um amigo diminuiu sua empresa de 80 para 20 funcionários porque perdia 80% de seu tempo tratando de papéis e normas (as tais 8100 em só um ano, descritas aí acima). Reduziu a empresa para 20 funcionários e passou a ter o mesmo resultado. Perde o país, amarrado na modorra (ou na masmorra) da perda de tempo com o custo-Brasil de papeladas, dez vezes maior que nos Estados Unidos.
9. É o ranço cultural da tradição cartorial portuguesa, cágada e morosa, que não conseguimos abandonar, apesar de nos aparentarmos – superficialmente! – tão interessados na rapidez dos sistemas eletrônicos.
10. Parece que jamais estamos preparando o país para a vida presente, mas sempre para “o dia que virá”.

Ainda de Roberto Magalhães, O Grito: é o que dá vontade de fazer todos os dias diante da papelada nas "terras do sem-fim".
Ainda de Roberto Magalhães, O Grito: é o que dá vontade de fazer todos os dias diante da papelada nas “terras do sem-fim”.

Muito além da Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 06/12

Funciona assim: "Desde o governo Sarney, governo Collor, governo Itamar, governo Fernando Henrique, governo Lula, governo Dilma, todos os diretores da Petrobrás e diretores de outras empresas, se não tivessem apoio político, não chegavam a diretor. Isso é fato. Pode ser comprovado". E o resultado é esse: "O que acontecia na Petrobrás acontece no Brasil inteiro: nas rodovias, ferrovias, nos portos, aeroportos, nas hidrelétricas. Isso acontece no Brasil inteiro. É só pesquisar".

A bem da verdade, o autor desses dois enunciados não estabeleceu uma relação de causa e efeito entre eles. Mas se o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, em depoimento à CPI mista do Congresso sobre o esquema de corrupção na estatal, deixou de ligar os pontos do quadro que traçou, não pode haver dúvida sobre o tamanho, o alcance e a longevidade do círculo vicioso da corrupção compartilhada por servidores públicos, autoridades, parlamentares e interesses privados.

Embora não se deva presumir que os executivos apadrinhados foram invariavelmente postos em seus cargos para enriquecer os seus padrinhos, a si mesmos e os empresários que têm negócios com os setores onde atuam - e financiam as campanhas dos políticos envolvidos -, o padrão decerto é esse. O exemplo perfeito é do próprio Paulo Roberto, nomeado em 2004 pelo então presidente Lula, a pedido do aliado PP, para a diretoria de Abastecimento da Petrobrás.

Ao longo dos oito anos seguintes, dividia entre o partido e o PT, nesse caso em proporção maior, as comissões pagas pelas empresas em busca de contratos (superfaturados) com a petroleira. Outra parcela ele mesmo embolsava e entregava ao doleiro Alberto Youssef para ser branqueada no exterior. Em junho último, três meses depois do início da Operação Lava Jato, a Suíça informou que os seus depósitos no país somavam US$ 23 milhões. Em setembro, comprometeu-se a devolver um total de US$ 26 milhões.

Diferentemente de sua ida anterior à CPI mista, quando ficou calado, na segunda-feira passada surpreendeu os parlamentares que o haviam convocado para uma acareação com outro ex-diretor da estatal, Nestor Cerveró, ao fazer um "esclarecimento inicial", em que falou da corrupção disseminada e das nomeações políticas. Admitiu ter arrolado "algumas dezenas" de políticos em seus 80 depoimentos no regime de delação premiada. Um deputado disse ter ouvido dele, depois da sessão, que os mãos sujas são pelo menos 35, filiados ao PP, PMDB e PT.

Costa confirmou que em 2009, já "enojado" do que fazia e via acontecer à sua volta na Petrobrás, mandou um e-mail à então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a fim de alertá-la do processo aberto no Tribunal de Contas da União (TCU) para a apuração de irregularidades em obras da empresa. A reiteração põe definitivamente abaixo a versão da presidente de que não tinha conhecimento de malfeitorias na estatal - cujo órgão máximo, o Conselho de Administração, ela chegou a dirigir.

Do mesmo modo, não há de ter sido pela boca do depoente que a maioria dos membros do Congresso Nacional ouviu pela primeira vez que a corrupção está presente "nas rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrelétricas", loteados entre os partidos. Alguns devem conhecer por experiência própria, digamos assim, exemplos do que Costa tinha em vista. Ironicamente, é o que pensa também o juiz federal Sergio Moro, a quem caberá julgá-lo. Uma planilha com dados sobre 750 obras públicas apreendida com Youssef sugere, segundo o juiz, "que o esquema criminoso de fraude à licitação, sobrepreço e propina vai muito além da Petrobrás".

Embora não seja tido como uma cleptocracia, o Brasil "estagnou" no índice de corrupção elaborado pela Transparência Internacional (TI). Do ano passado para este, o País subiu da 72.ª posição para a 69.ª no total de 175. Numa escala de 0 a 100 pontos, o Brasil praticamente ficou onde estava, ganhando apenas um ponto - de 42 para 43. "O dinheiro público continua a ser saqueado", observa o diretor para as Américas da TI, Alejandro Salas.

"Está tudo bichado nos palcos do poder", afirmou editorial do Estado, terça-feira. É pior na Rússia, China e Índia, três dos nossos sócios no Brics. Mas isso não é consolo.

J.R. Guzzo: ‘Sem alegria’



Publicado na edição impressa de VEJA
J.R GUZZO
A história vive nos ensinando como é difícil satisfazer certos ganhadores. Quanto mais ganham, mais reclamam; por questões de temperamento pessoal, ou pelo momento político, ou pelo tumulto que criam para si mesmos e para os outros, seus triunfos tendem a gerar discórdia, neurastenia, frustração e, no fim das contas, um pote até aqui de mágoa. Um caso clássico de infelicidade na glória é o do rei Felipe II da Espanha, geralmente visto como o monarca mais bem­-sucedido de todos os tempos. Felipe II governou um império que cobria os 24 fusos horários da Terra. A bandeira espanhola estava presente nos quatro continentes conhecidos em seu tempo; em toda a América, da Califórnia à Patagônia, incluindo o Brasil, ele reinava sozinho. Era o proprietário da maior parte de todo o ouro e prata existentes no mundo. Nem a Inquisição Católica da Espanha, a mais selvagem da época, tinha coragem de se meter com ele. Mas nada disso, pelo que se sabe, foi suficiente para deixá-lo satisfeito. “Queira Deus que eu possa ser tratado melhor no céu do que nesta vida”, queixou-se Sua Majestade pouco antes de morrer, em 1598, após 42 anos seguidos no trono.
Homem difícil de agradar, esse Felipe II – o que mais ele poderia querer? Sem dúvida, mas o cidadão comum ficaria surpreso se soubesse como são frequentes os casos de baixo-astral explícito que acompanham muitas das grandes vitórias na política. Justo agora, por exemplo, temos no Brasil uma situação desse tipo. Ninguém aqui está dizendo que Dilma Rousseff, recém-vitoriosa nas eleições, é uma Felipe II, porque ela com certeza não é uma Felipe II – a começar pelo fato de que não pode ficar, como o companheiro espanhol, mais de quarenta anos no governo, o que lhe daria o equivalente a dez mandatos seguidos na Presidência da República. Mas tudo indica que seu último triunfo está sendo um desapontamento. A presidente foi reeleita. Seu patrono, o ex-presidente Lula, conseguiu um novo milagre. Seu partido ganhou pela quarta vez seguida a eleição presidencial. Ainda assim, Dilma nunca pareceu tão infeliz quanto agora. Fez duas excelentes escolhas para o seu novo ministério, Joaquim Levy para a Fazenda e Kátia Abreu para a Agricultura – mas o PT ficou irado. Meteu-se numa miserável trapaça para falsificar no Congresso os números do orçamento, e por conta disso colocou fora da lei o governo que chefia. Suas tropas atiram em si próprias com a mesma violência com que atiravam até outro dia contra os adversários da campanha eleitoral. Fantasmas do passado se associam com fantasmas do futuro.
É verdade que com um petrolão inteiro pela proa não dá para ninguém ficar animado – Dilma e Lula, a esta altura, não podem mais construir uma linha de defesa que os absolva, e os fatos já demonstraram que os governos de uma e do outro entrarão para a memória pública como os mais corruptos de toda a história do Brasil. Mas parece haver algo mais inquietante nessa síndrome de depressão pós­eleitoral. Antes ainda do resultado final, gente graúda no governo e em seu sistema de apoio garantia que a presidente só poderá salvar o seu segundo mandato de um naufrágio se “se livrar” de pessoas e de posturas que se tornaram flores no seu jardim. Dilma, por esses teoremas, precisa “livrar­se” deste ou daquele ministro, dos arquiduques desta ou daquela estatal, e por aí se vai. Perfeitamente: poderia livrar-se, aliás, dos seus 39 ministros, e ninguém iria perceber nada. O problema, falando francamente, é que para que as coisas melhorassem de verdade Dilma teria de livrar-se principalmente de si mesma – e isso, como se diz, não vai rolar.
O que complica a situação para Dilma Rousseff, e principalmente para o país a ser governado por ela nos próximos quatro anos, é precisamente Dilma Rousseff. Essa conversa toda sobre seu estilo, sua inclinação à “gerência”, sua paixão por frases que não acabam e por pensamentos que não começam etc. fica indo de lá para cá, de cá para lá, e esconde o fato essencial – o de que a presidente do Brasil, diga-se com toda a educação possível, não tem capacidade para exercer esse cargo. Há pessoas que aprendem o suficiente para ter muitas ideias, mas não o necessário para fazê-las dar certo; é o caso da presidente. Pessoas assim acabam criando uma hostilidade sem limites a tudo o que não é medíocre, e com isso se condenam a não aprender nada que as ajude. Só mudam quando são forçadas. São obcecadas por truques montados para esconder suas derrotas e negar os erros. É uma fórmula segura para viver na insatisfação.

Caio Blinder- Ui, ui, Xi e Putin, o ano do homem forte





Em Moscou, o presidente chinês Xi Jinping passa as tropas em revista
Para os amantes de um assunto tão árido como relações internacionais, a pensata de Philip Stephens no Financial Times é excitante. No coração da pensata está o homem forte. Este foi o ano dele: do russo Putin, do chinês Xi Jinping, do egípcio Sisi e do turco Erdogan. Aqui estão citados os autoritários, mas na galeria podemos incluir alguns sem inclinação para subverter a ordem liberal constitucional como o japonês Abe e o indiano Modi.
É uma turma mais conectada com conceitos de nacionalismo e de ego enraizados em épocas passadas. São conceitos abandonados por uma Europa pós-moderna (pós-Segunda Guerra), que aprendeu tantas lições com os riscos e as trevas causadas por revanchismo, revisionismo histórico e restauração de velhas glórias.
Há um tom de lamento no europeu Philip Stephens (bem europeu para um britânico). Ele observa que esta Europa pós-moderna se debate para enfrentar um mundo que não é exatamente com o qual ela sonhava. Neste mundo real do homem forte, a competição suplanta a cooperação e o nacionalismo está acima do internacionalismo.
A Europa deixou a história para trás (embora as velhas forças da xenofobia e do nacionalismo extremado estejam novamente em alta dentro da própria União Europeia). No entanto, permanece um firme compromisso europeu com valores universais, como democracia e respeito aos direitos individuais, valores que são desprezados e renegados por gente como Putin e Xi Jinping.
Stephen observa que os americanos estão mais à vontade para se ajustar a estes novos/velhos tempos. O compromisso americano com a ordem multilateral sempre foi ambivalente, mesclando autointeresse e altruísmo.
Barack Obama é visto por conservadores estridentes e sem sutileza como um agente ingênuo e pacifista de interesses internacionalistas ou multilaterais, mas ele está bem à vontade com o realismo cerebral e a aversão a uma política externa idealista ou humanista. Ele foi obrigado nos últimos tempos a ir em socorro da velha Europa com seus ideais pós-modernos.
Como diz Stephens, os EUA de Obama consideram a beligerância revanchista de Putin um mero aborrecimento. No great game de poder, a verdadeira competição estratégica é com a China, O sonho de Obama era cair fora da Europa e do Oriente Médio. A realidade impediu.
Stephens arremata que estes líderes do padrão homem forte anunciam que o modelo multilateral da segunda metade do século 20 foi um interlúdio histórico e não uma mudança permanente na natureza do relacionamento entre os estados. Na advertência de Stephens, o Ocidente está prestes a reaprender o que é viver em um mundo bem mais áspero.
No meu arremate, o Ocidente não pode ser fraco com o avanço do homem forte autoritário em nome dos valores universais que apregoa.

Caio Blinder- Democratas são uma espécie quase extinta no sul dos EUA

A humilhação eleitoral dos democratas nas eleições americanas de 4 de novembro se arrastou até o último sábado com o fracasso, no segundo turno da votação, da senadora Mary Landrieu para ser reeleita. A partir de janeiro, os republicanos terão uma maioria folgada no Congresso (já tinham na Câmara e em novembro conquistaram o Senado, onde terão 54 das 100 cadeiras). A impopularidade do presidente Barack Obama contribuiu bastante para a humilhação democrata.
A derrota de Mary Landrieu, herdeira de um clã político no estado sulista da Lousiana é histórica. Com a perda de sua cadeira, os democratas são uma espécie quase em extinção na região conhecida como Deep South. São os sete estados originais da Confederação que racharam com a União na Guerra Civil (1861-65), quando ocorreu o fim da escravidão.
Nos sete estados do Deep South, os democratas estão privados de governos estaduais e controlam apenas uma cadeira de senador, Ben Nelson, na Flórida, que tem um perfil demográfico muito peculiar (com latinos e aposentados que vieram de partes mais liberais do país).
E sem o estado da Virgínia, cuja demografia mudou nos últimos anos, o cenário é simplesmente desolador para os democratas nos outros estados que compunham a Confederação e onde o esquema de segregação vigorou de forma escancarada e legal até os anos 60. A partir de janeiro, apenas 39 das 145 cadeiras sulistas no Congresso serão democratas.
Foi justamente a aprovação da lei dos direitos civis em 1964, impulsionada por um presidente sulista e democrata, Lyndon Johnson, que alterou o quadro partidário, desembocando na hegemonia conservadora no Deep South do país, onde ainda estão alguns dos estados mais pobres e preconceituosos, como Alabama e Mississippi (ambos possuem uma alta percentagem da minoria negra).
Até os anos 60, o Partido Democrata era uma coalizão formada por sulistas segregacionistas e por liberais de outras partes dos EUA (não podemos esquecer que o venerável libertador dos escravos foi o republicano Abraham Lincoln.
George Wallace, forever
George Wallace, forever
Nos anos 60, Johnson estava plenamente consciente do preço que seu partido pagaria com o fim da segregação: a perda do sul para os democratas. Na época do racismo legal, o Deep South era um feudo democrata. O partido controlava qusse 100% dos legislativos estaduais, governos estaduais e cadeiras no Congresso.
Existem imagens icônicas de governadores democratas que resistiriam até o fim contra o fim do racismo legal. Na frase de George Wallace na sua posse como governador do Alabama em 1963: “Segregation now, segregation tomorrow and segregation forever.”
Ademais, houve uma virada mais acentuada dos democratas para as posições liberais (o que se rotula de progressismo fora dos EUA), em particular nas chamadas guerras culturais (questões como religião, aborto, direitos de minorias, casamento gay e controle de armas), enquanto a virada conservadora dos republicanos foi ainda mais emblemática.
A guerra pelo sul americano ainda não está completamente perdida para os democratas. Um teste vital será a eleição presidencial de 2016, quando deverão comparecer às urnas de forma mais expressiva um eleitor mais diversificado e urbano, mesmo no sul, entre os quais  jovens e brancos com maior qualificação profissional e educacional, que integram a base de sustentação democrata. Outro ponto: nove dos 10 estados com maior crescimento da população latina (mais afinada com os democratas) estão no sul.
No entanto, será preciso mais do que uma guinada demográfica para resgatar um modelo de democrata sulista mais centrista (como a derrotada Mary Landrieu). O partido vai precisar investir menos tempo nas guerras culturais que polarizam e mais nas preocupações materiais de uma classe média e de setores brancos mais pobres que estão aflitos , apesar dos sinais positivos na economia.
E há a esperança de que a partida de Barack Obama da Casa Branca leve céticos eleitores brancos no sul dos EUA a darem uma outra chance aos democratas. Esta é a aposta de Hillary Clinton.