terça-feira, 25 de novembro de 2014

VIDA EM CUBA- Yoani Sánchez- Violência e discurso público



Afiche por el sexto aniversario de la revista Convivencia
Numa esquina uma mulher bate num menino que parece ser seu filho. Os transeuntes que passam não se metem. Cem metros adiante dois homens arrumam uma briga porque um deles pisou nos sapatos do outro. Chego a casa refletindo sobre essa agressividade a flor da pele que se sente na rua. Para sair de tanta tensão leio o último número da revista Convivência, que acaba de fazer seis anos de fundada. Encontro em suas páginas um artigo de Miriam Celaya que aborda, casualmente, essa “perigosa espiral” de pancadas, gritos e irritação que nos rodeia.
Sob o título “Apuntes em torno al origen antropológico de la violência em Cuba”, a mordaz analista inspeciona os antecedentes históricos e culturais do fenômeno. Nossa própria jornada nacional, feita a “sangue e fogo”, não ajuda muito na hora de se promover atitudes como o pacifismo, a concórdia e a conciliação. Dos horrores da escravidão durante a colônia, passando pelas guerras de independência com seus ataques de facão e seus caudilhos prepotentes, até chegar aos acontecimentos violentos que também caracterizaram a república.  Uma longa lista de iras, golpes, armas e insultos moldaram nossa idiossincrasia e são magistralmente enumerados pela jornalista em seu texto.
Menção aparte merece o processo iniciado em janeiro de 1959, que fez do ódio de classes e da eliminação dos diferentes pilares fundamentais no discurso político. Daí que ainda hoje a maior parte das efemérides que o governo comemora se referem a batalhas, conflitos bélicos, mortes ou “flagrantes derrotas infringidas” ao opositor. O culto a cólera é tal que a própria linguagem oficial não percebe o rancor que promove e transmite.
Porém cuidado! O ódio não pode ser “tele-dirigido” uma vez fomentado. Quando se aviva o rancor contra outro país, acaba por se validar também a ojeriza ao vizinho cuja parede confronta com a nossa casa. Os que crescemos numa sociedade onde o ato de repúdio se justificou como “legítima defesa do povo revolucionário”, podemos pensar que os golpes e os gritos são o modo de nos relacionarmos com os quais não nos entendemos. Nesse entorno de violência a harmonia nos parecerá sinônimo de fraqueza e a convivência pacífica uma armadilha em que “o inimigo” nos quer fazer cair.
Tradução por Humberto Sisley

Instituto Ordem Livre- A impostura da dicotomia entre “esquerda solidária” e “direita ordeira”

Ao longo dos últimos séculos pudemos observar no universo político das chamadas democracias modernas, sem exceção, o estabelecimento de uma dicotomia política cujo roteiro foi escrito como farsa: a distinção entre duas facções políticas dominantes, uma conhecida como “esquerda solidária” e a outra como “direita ordeira”.
As denominações obviamente variam de acordo com a retórica dos grupos que, nos jogos de interesses, buscam acima de tudo e invariavelmente a maximização do poder e dos privilégios para seus membros. Os partidários das agremiações de esquerda aplicam frequentemente aos seus oponentes rótulos como autoritários, disciplinadores, conservadores, reacionários, retrógrados, individualistas e exploradores, entre outras denominações consideradas pejorativas. Aqueles à direita por sua vez aplicam aos seus adversários políticos de forma igualmente pejorativa adjetivos como irresponsáveis, utópicos, ineficazes, libertinos, incivilizados, baderneiros, espoliadores, etc.
O liberal bem informado não se surpreende com o uso de hipérboles em meio ao excessivo ativismo político vigente nas democracias hipertrofiadas, afinal é capaz de enxergar além da encenação teatral que lhes é característica. É necessário, porém, ir além das hipérboles. Tal dicotomia é acima de tudo uma impostura consentida que permite aos representantes políticos e seus eleitores, de ambos os lados, a defesa (ou percepção de defesa) de seus privilégios sob o manto de uma retórica simples mas aparentemente meritória e justa (ainda que falsa).
Começo por mostrar que a dicotomia é uma farsa. Suas origens históricas são múltiplas e assim de difícil descrição, mas vemos a dicotomia presente de longa data, por exemplo, na cultura popular, como na imemorial fábula da cigarra e da formiga, e em disputas políticas recorrentes, como na que se travou entre Thomas Jefferson (solidário: proteção dos interesses dos governos locais e dos pequenos proprietários e agricultores) e Alexander Hamilton (ordeiro: proteção dos interesses do governo central e dos conglomerados financeiros e comerciais). Creio que a origem de tal dicotomia está na experiência humana universal da convivência em família, onde valores de solidariedade e ordem são importantes fontes de conflitos. A extrapolação dessa dicotomia do universo familiar para a política, ou seja, a falsa concepção da sociedade como uma macrofamília que enfrenta os mesmos dilemas da família nuclear é uma falácia amplamente aceita que tem como efeito impedir o bom funcionamento das democracias modernas.
Se a dicotomia é onipresente no ideário humano, como é possível afirmar que se trata de uma farsa? A farsa consiste mais precisamente no uso de fortes eufemismos para descrever o verdadeiro objetivo de cada um dos grupos políticos. Tome-se o caso da “esquerda solidária”: se sua verdadeira intenção fosse a promoção da solidariedade entre humanos, então incitaria seus membros a doar suas riquezas e esforços aos demais membros da sociedade sem exigir que aqueles que não são partidários façam o mesmo. O fato de que sua verdadeira motivação seja a desapropriação como fonte de recursos para a sustentação do seu poder e privilégios é prova de que o rótulo de “esquerda solidária” é uma farsa. De fato, para atingir seus objetivos, a “esquerda solidária” deve inevitavelmente utilizar instrumentos disciplinadores, explicando assim como seus governos estão fadados ao autoritarismo entre outras qualidades pejorativas que atribuem, ironicamente, a seus rivais.
O uso do eufemismo também é evidente entre os partidários da “direita ordeira”. Se sua verdadeira intenção fosse a promoção de uma ordem livre entre humanos, então incitaria a disciplina pessoal e a prática da virtude de acordo com os valores de cada indivíduo, sem exigir que aqueles que não são afiliados façam o mesmo. Em busca do voto, entretanto, sua retórica passa recorrentemente pela promoção de conflitos militares, pela marginalização e criminalização de divergências comportamentais (como no caso das leis secas ou da criminalização da prostituição), e pela manipulação dos medos e inseguranças dos eleitores. Ou seja, em nome da ordem e da segurança promovem exatamente aquilo que atribuem aos seus opositores: a desordem, o conflito e a desconfiança mútua.
A impostura consentida permite convenientemente à “esquerda solidária” e à “direita ordeira” compartilharem tranquilamente do apego que nutrem pelo exercício do poder e pelos seus privilégios, ao mesmo tempo em que evita o reconhecimento de que a diferença entre os dois grupos não está nem nos meios nem nos objetivos, mas naquilo que, independentemente de mérito, desejam tomar de terceiros ou não desejam ceder a terceiros.
* Publicado originalmente em 02/05/2012.

Autor

“O tempo é um grande apagador. Um dia seremos todos esquecidos.” (Filosofeno)

“É a realidade. Com Dilma já estamos na metade do caminho para o nada.” (Mim)

TROCADILHO INFAMEZINHO- “A most tarda, mas não falha.” (Pócrates)

“Às vezes a morte faz nobre aos olhos do povo muitos homens que não valem um cuspe.” (Limão)

“Da morte nem o maior crápula escapa. Isso sim é justo.” (Mim)